Casas-Lar - Arma Contra a Discriminação
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 1997
Célia Baroni 
Londrina
A existência de instituições que recebam as crianças abandonadas é uma necessidade indiscutível. Mas qual a melhor forma de receber estas crianças, minimizando o sofrimento pela perda e garantindo a elas um futuro? Para a psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mariza da Silva Santos Finato, as casas-lar são, hoje, a melhor opção disponível.
Ela abordou o assunto em sua tese de mestrado que tem como título Famílias Substitutas: Solução para o Abandono Infantil. A pesquisa, desenvolvida no ano passado, demonstrou que 95% das criança das casas-lar apresentam um bom nível de auto-conceito e um aproveitamento escolar compatível com a média estadual.
As casas-lar são unidades de extensão de instituições que recebem crianças e adolescentes e funcionam dentro do sistema familiar. Cada casa recebe 10 crianças, em média, que são acompanhadas permanentemente (saúde, educação, etc) por uma larista ou um casal de laristas. Os laristas moram nas casas e o convívio diário objetiva se aproximar ao máximo do vivido em uma família tradicional.
A pesquisa concluiu, por exemplo, que as crianças das casas-lar não carregam o estigma de estarem institucionalizadas. Frequentando a escola, que é fora da instituição, afirma, eles fazem suas amizades, descaracterizando a exclusão própria do sistema tradicional. Nos orfanatos tradicionais a criança ficava praticamente limitada aos muros das instituições, afirma.
Mariza Finato acrescenta que, nas escolas visitadas por ela durante o desenvolvimento da pesquisa, alguns professores nem sabiam da situação da criança, eliminando qualquer possibilidade de discriminação. Na avaliação do desenvolvimento emocional, os resultados apontaram alterações previsíveis e contornáveis, segundo a psicóloga. Entre os meninos, 33,33% têm um excesso comportamental - são críticos e agitados. E 36,36% das meninas na mesma situação desenvolvem traços de timidez e introspecção.
Cerca de 30% das crianças apresentam um atraso de dois a três anos, na escola; mesmo índice levantado pela Secretaria de Educação no Estado, em 1996. Mariza Finato enfatiza que a pesquisa apontou ainda que mais de 20% das crianças estão adiantadas. Esta análise evidencia que o sistema de educação da criança se aproxima da realidade familiar vivida pelos menores que vivem com suas famílias, analisa.
Na pesquisa, Mariza Finato ouviu e acompanhou 20 crianças entre oito e 18 anos, durante um ano. As crianças ouvidas (95%) estavam na instituição há mais de dois anos. E a conclusão da tese foi de que, apesar das dificuldades, o sistema de casas-lar apresenta bons resultados. Apesar da avaliação positiva da casa-lar, a psicóloga levanta alguns nós críticos no sistema. Não existe lar sem conflito, mas é possível melhorar ainda mais a qualidade do atendimento dado a estas crianças afirma. Ela ressalta a importância da capacitação dos laristas e da manutenção de uma equipe multidisciplinar (psicologia, ação social e pedagogia) de apoio às crianças e aos laristas.


