O lar de um homem é o seu castelo, diz um provérbio que remete aos idos da Idade Média. Naquela época, os senhores feudais residiam em castelos fortificados e nos limites de seu domínio moravam também os servos. Todo o feudo era protegido por muralhas e estas, por sua vez, ainda dispunham de fossos em volta. Havia o perigo iminente de ataque do bando de Robin Hood ou de outros inimigos, havia a ameaça das pestes, das cruzadas e dos bárbaros. Por isso, o castelo, ainda que enorme, frio, desajeitado e sem aconchego, representava um lar. Era nele, e em seu redor, que senhores e servos se sentiam protegidos.
Quando Londrina nasceu, havia muito que os senhores feudais, fossos e castelos estavam encerrados em capítulos dos livros de história. Entretanto, com pouco menos de sete décadas, as casas e muros londrinenses também têm histórias. Em alguns bairros de Londrina as casas ‘‘falam’’ e os muros ‘‘consentem’’. Na Vila Casoni, região leste da cidade, muitas casas de madeira ainda hoje atestam a abundância de árvores, perobas em especial. Estas emprestaram seus troncos imensos para servir de abrigo aos homens que construíram a diminuta Londres de então. De madeira eram as tábuas e as mata-juntas, lascas compridas que cobriam os vãos. De madeira também erguiam-se as cercas. Balaústres, assim eram chamadas as peças de madeira pontudas como lanças, enfileiradas e unidas por um travessão. A balaustrada, em meio aos desvãos, não impedia a passagem de galinhas e suas ninhadas, a ciscar canteiros.
Depois da fase da madeira vieram os tijolos, que na época eram maciços. Em alguns pontos da Avenida Duque de Caxias, área central, vê-se ainda casas e lojas, com grossas paredes, janelas e portas abrindo-se de frente para a rua, quase deixando escapar a intimidade dos moradores. Parado junto à parede, o pedestre podia ouvir trechos de conversas e o ranger da cadeira de balanço. Os muros, quando haviam, eram baixos, projetados de forma que parecessem pequenos pilares. É preciso não esquecer que houve um tempo em que os muros eram apenas ornamento. Algumas das casas, no alto da parede, próximo ao telhado, tinham um pequeno nicho, algo como um oratório, onde o dono colocava o santo de devoção da família.
As paredes das casas não têm apenas ouvidos: elas ‘‘falam’’ . Como disse o poeta, ‘‘as casas espiam os homens’’, e depois contam para todo mundo como o dono vive. Ainda que alguns londrinenses tenham hoje se acastelado, para não verem ou serem vistos, as casas continuam ‘‘espiando’’, mas como estão ocultas, são os muros que ‘‘falam’’ por elas. Em bairros nobres, no sentido imobiliário da palavra, as ruas são silenciosas, há pouco tráfego, quase não dá para se ver as casas, protegidas por altos muros. Os fossos e os crocodilos deram lugar às cercas elétricas e às guaritas. Em outra proporção, há lares como castelos. Lá de dentro, impedidas de falar, as casas assopram aos muros, que espalham para toda a cidade: os donos ainda se sobressaltam com Robin Hood, com pestes, cruzadas e bárbaros.

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