Quatro casas parcialmente demolidas que foram desapropriadas há cerca de seis anos para instalação de novos equipamentos no Aeroporto de Londrina estão servindo de abrigo para moradores de rua no Jardim Vale Verde (Zona Sul). Um dos imóveis foi ocupado por um senhor ‘‘abandonado pela vida’’ e outro serve de morada para mais dois homens. Estes locais, segundo moradores, teriam se tornado fonte de problemas. Mas também se transformaram em pontos de encontro de amigos, que se reúnem para tomar uma ‘‘pinguinha, assar uma carne e jogar conversa fora’’.
  As casas ficam no início da avenida José Ventura Pinto, às margens do Aeroporto. Elas se somavam às outras já demolidas que foram desapropriadas pela Prefeitura para instalação no Aeroporto do ILS, um equipamento que permite pousos e decolagens em situações de tempo adversas.
  Um dos moradores atingidos foi o encarregado Valmir Alexandre Ribeiro, 39 anos. ‘‘Faz quatro anos que tivemos que mudar e todo ano a gente pede para demolir essas casas mas até agora nada’’, reclamou. Segundo ele, até 12 pessoas freqüentam os imóveis, que teriam se transformado em pontos de consumo de álcool e outras drogas e estariam servindo de esconderijo para ocultar produtos furtados ou roubados e até foragidos.
  O presidente da associação dos moradores, Aparecido Gomes da Silva, 46 anos, mostrou um ofício de março do ano passado onde solicita à Secretaria Municipal de Obras a demolição das casas. Ele afirmou que o bairro está abandonado e carente de muitas coisas e que os mocós ‘‘são apenas um dos problemas da comunidade’’.
  Numa das casas mora há quatro meses o ‘‘construtor de obras’’ desempregado Martinho Lino Macedo, 69 anos, que antes vivia na rua. Visivelmente alcoolizado, ele se emociona ao falar da própria vida. ‘‘Quero ir embora daqui mas preciso de solidariedade. Não tenho ajuda e a minha família não quer me ajudar. Não é possível o tanto que estou sofrendo’’. A mulher e os seis filhos, segundo ele, moram em Londrina mas há anos não o procuram.
  Abandonado à própria sorte, seu sonho é conseguir um terreno e um pouco de madeira para construir sua própria casa. Enquanto isso não acontece, ele segue ‘‘sobrevivendo’’ com meio salário de aposentadoria. Para preservar o pouco da dignidade, fechou duas janelas e colocou tapumes na porta. A água ele usa a da chuva. O fogão foi improvisado com tijolos. Para comer, ontem à tarde, só tinha um pouco de açúcar e um resto de farinha caída no chão. E as panelas? ‘‘Tinha três mas a molecada roubou’’.
  Num outro imóvel, outros dois homens dormiam improvisadamente no chão. Outros que chegaram ao local, disseram que são moradores de sítios próximos ao bairro e têm profissão definida. A casa, afirmaram, virou um ponto de encontro da turma. ‘‘Quando o tempo tá bom, a gente vem quase todo o dia a tarde tomar uma pinguinha, assar uma carne e jogar conversa fora’’, falou um deles. Um outro assegurou que ninguém alí faz uso de drogas nem possui problemas com a Polícia ou a Justiça.
  O secretário municipal de Obras, Aloysio de Freitas, garantiu que vai apurar a situação dos imóveis junto à Prefeitura. Caso as indenizações já tenham sido pagas, uma equipe da Secretaria vai fazer a demolição das casas nos próximos dias.

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