Casal tem saudades do tempo em que vilarejo era uma comunidade pacífica
Juvêncio e América, na casa em que há 30 anos levam sua vida simples: Nós não queremos sairCorpo curvado, escorado por um bastão de jaguatirão, Juvêncio Arve de Souza, 83 anos, caminha ao lado da mulher América Corrêa de Souza, dez anos mais nova, até a casa onde vivem, um ranchinho de madeira simples com pequenas frestas que deixam passar a luz. Desolados, mostram, logo ao lado, o terreno que pertencia ao filho e foi comprado por Cavalcanti. Nós não queremos sair. Também não queríamos que ele vendesse, porque estava perto de nós, contam os dois, que moram em Rasgadinho há pelo menos 30 anos, tempo que lhes dá garantia de posse, conforme a lei de usucapião.
Estão ali, segundo eles, por terem recebido um lote de José Cavalcanti, o pai de Sérgio Cavalcanti. Ele disse que a gente poderia morar aqui o quanto pudéssemos viver, conta Juvêncio, um homem simples, que nasceu e viveu no município de Guaratuba.
Antigos trabalhadores da roça, Juvêncio e América não trocam por nada a vida pacífica na casa de dois cômodos: quarto e cozinha. Sem eletricidade - a energia só chega até a Fazenda Estrela -, os dois se acostumaram aos raios do sol de dia, e às velas à noite. A água, tanto para beber quanto cozinhar, vem de um poço artesiano, feito perto da casa. Neste mundo atípico para padrões do Sul brasileiro, os idosos têm como passatempo as ondas sonoras de um rádio a pilha.
Da política, sabem apenas o nome de um deputado estadual. Calendários e camisetas promocionais podem ser vistos em Rasgadinho e na Serra da Limeira. Juvêncio tem um mundo particular marcado por um contrasenso: o auxílio do Estado não chega, mas a política faz de conta que o aparelho público está presente, principalmente em anos eleitorais.
Juvêncio e América confirmam que Sérgio Cavalcanti já propôs a compra de seu terreno. Se eu vender, pra onde é que eu vou?, pergunta Juvêncio, que vive de uma aposentadoria de R$ 120,00 ao mês e de uma pequena plantação de bananas. As parcas compras do mês são feitas em Cubatão, numa incômoda viagem de barco. Juvêncio costumava fazer o rancho em Limeira, uma caminhada de 45 minutos, mas abandonou o trajeto por causa dos búfalos.
Apesar da calma e belezas naturais do lugar, a lembrança mais marcante do casal é recente: a truculência de Joacir, um segurança, segundo Cavalcanti. Ele bebia e dava muitos tiros para o mato. A gente tinha medo de sair de casa, relembra o agricultor. As outras lembranças são boas, do tempo em que não tinha esses jagunços aí.





