Quando meus amigos me disseram que havia um menino, não pensei duas vezes: fui buscar e trouxe para casa. Era a premiação de quase sete anos de espera por um filho que, achávamos, não viria mais.
Assim o representante comercial Edvaldo Santos Ferreira resume a história que o colocou na mira da Justiça Federal. Ele e Márcia, com quem está casado há 10 anos, nunca imaginaram que a realização de um sonho se transformaria num caso de polícia. O casal recebeu, no último dia 9, uma visita nada agradável: oficiais de justiça da Promotoria da Infância e Juventude de Londrina, acompanhados de agentes da Polícia Federal, foram à casa deles, num bairro da zona sul da Cidade, cumprir mandado de busca e apreensão expedido pelo juiz da 3ª Vara Criminal de Dourados-MS, João Adolfo Astolfi.
O mandado se referia ao pequeno Lucas, de 43 dias de idade, que Edvaldo e Márcia consideram seu filho adotivo desde que uma amiga foi avisada de que em Dourados havia um menino no hospital para ser adotado. Edvaldo Ferreira trabalha nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde diz ter vários amigos e conhecidos. ‘‘Todos sabiam da nossa vontade de adotar uma criança e decidiram nos ajudar’’, diz Edvaldo. ‘‘Quando a minha amiga soube sobre o Lucas, ligou imediatamente para a gente, querendo saber se ainda estávamos interessados em adotar. Avisou que o menino estava em péssimas condições e não era bonito, mas nós não nos importamos. Ela pegou a criança e entregou para mim.’’ Lucas nasceu dia 4 de novembro.
Pouco tempo depois, porém, a pessoa que havia intermediado a adoção procurou a amiga de Edvaldo e Márcia no Mato Grosso do Sul pedindo R$ 250,00 sob a alegação de que a mãe biológica de Lucas estava doente, precisava de medicamentos e queria ligar as trompas para não ter mais filhos. A amiga, conta Edvaldo, disse a ela que não dispunha do dinheiro mas poderia dar um cheque pré-datado.
Edvaldo afirma que procurou a mãe biológica de Lucas para saber se ela queria o filho de volta, mas Edvaldo afirma que ela disse não poder cuidar dele. Convencida de que Lucas estaria bem com o casal, ela registrou em cartório um documento abrindo mão do pátrio poder, confirmando seu desejo de que a criança permanecesse com o casal londrinense.
Edvaldo e Márcia trouxeram a criança para Londrina e começaram sua vida com o filho recém-nascido. Com a ajuda dos vizinhos e do médico aprenderam como amamentá-lo e os cuidados necessários para ajudar na sua recuperação. ‘‘Parece que o parto foi difícil e ele nasceu cheio de hematomas.’’
Com a carteirinha de vacinação, exames e acompanhamento médico de Lucas nas mãos, Edvaldo conta, orgulhoso, que Lucas cresceu quatro centímetros e engordou 1.230 gramas em um mês. ‘‘A média é de 700 gramas por mês.’’
Agora, Lucas está no Lar Anália Franco, em Londrina, sob guarda do Juiz da 3ª Vara Criminal de Dourados. Edvaldo e Márcia estão proibidos de visitar Lucas. A Justiça está investigando a possibilidade do casal estar envolvido em tráfico de crianças.
Doente, Márcia está na casa de parentes. No quarto do casal, o berço está desfeito, mas o armário com as roupas e medicamentos de Lucas continua como há uma semana. ‘‘Minha esposa não aguentava mais a dor de ver as coisinhas dele.’’
Edvaldo garante que jamais houve má fé. ‘‘Reconhecemos que não agimos de forma legal, mas depois de tanto tempo de espera nem paramos para pensar no risco. Apenas queríamos nosso filho.’’ Ele já entrou com pedido de guarda junto ao Fórum de Dourados, e seu advogado vai pedir recurso junto ao tribunal de Campo Grande. ‘‘Se for preciso, vamos à Brasília’’, diz.
Edvaldo diz que espera da Justiça que ‘‘ela seja mais do que justa e avalie o o caso de forma humana e não legalista’’. ‘‘Foi um choque para nós sermos taxados de traficantes de bebês’’, diz ele. ‘‘Nós não sabemos como vamos fazer, mas estamos dispostos a tudo para recuperar nosso filho.’’

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