Casal monta casa sob ponte
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quarta-feira, 07 de janeiro de 1998
Lúcio Horta 
Josoé de CarvalhoImprovisoTeresa na casa improvisada sob a ponte do ribeirão Quati: chão de terra sempre varrido e madeira para preservar a intimidadeHá três meses a ponte da avenida Winston Churchill, que fica sobre o ribeirão Quati, na zona norte de Londrina, virou a casa de Teresa Maria Antônia Vogri, 38 anos, e Carlos, seu companheiro. E não é uma residência qualquer. Lá tem quase tudo: fogão, mesa, armário, pia, utensílios de cozinha, quadros e até jogo de sofá. Para preservar a intimidade do casal, dona Teresa saiu pela região, arrumou madeira e fechou a frente da casa. Eu mesmo levantei as paredes. Deu um trabalhão danado, mas ficou muito melhor do que era antes. As pessoas passavam e ficavam olhando para dentro, o que não acontece mais, observa.
A dona de casa explica que antes de ir para a ponte vivia com o ex-marido na favela do Quati. Como ele bebia muito, ela resolveu vender o barraco, dividir o dinheiro e procurar um lugar qualquer com o novo companheiro. Cheguei aqui só com a roupa do corpo. Mas as pessoas passavam aqui, vinham conversar com a gente e ajudava de alguma forma. Ganhei muita coisa e aí foi dando para arrumar melhor o lugar.
Capricho também não falta para a casa de Teresa: a louça está sempre lavada, o chão - apesar de ser de terra - varrido e até a cama improvisada tem o cobertor estendido com cuidado. Cachorro também não falta: por falta de um, tem dois, Negão e Princesa. Tinha também um terceiro, que foi atropelado e levado para um veterinário que dona Teresa não soube dizer qual.
O grande problema, agora, é a falta de trabalho para o companheiro de Teresa. Ele passa o dia na rua procurando emprego, mas está muito difícil. Está difícil para todo mundo, conta. Para comer, o casal conta com a solidariedade das pessoas que passam no local e ficam sensibilizados com a situação. A dona de casa só tem estranhado a água que bebe, retirada de uma mina próxima da ponte. Desde que eu vim para cá não tenho mais me sentido bem, com uma dor diferente na barriga.
Além da água, ela conta que também fica incomodada com o mau cheiro do rio que passa sob a ponte, a poeira e também o barulho dos carros. O tráfego no local é intenso. E apesar de todo cuidado com o lugar que achou para morar, dona Teresa admite que o grande sonho é mesmo arrumar um novo terreno para levantar um barraco para ela e o companheiro. Pode ser em qualquer lugar que está bom. Madeira eu já tenho, é só levar para lá e começar uma vida nova.
A estadia debaixo da ponte não foi a única grande mudança na vida de dona Teresa. Ela lembra que, assim como o ex-marido, bebia muito e vivia caindo pelas esquinas da favela do Quati. Depois passou a frequentar uma igreja evangélica, o que lhe abriu novas perspectivas. O Natal e o Ano Novo eu passei aqui. E posso garantir que foi muito bom, muito bom mesmo. Enquanto o Carlos não arrumar trabalho a gente vai se virando e tudo vai dar certo.


