Mário CesarDedicação mútuaCelso e Lúcia dividem os estudos com os filhos Victor e Vinícius, já universitários: ‘Eles estão encaminhados; agora é a nossa vez’O vestibular de verão em Londrina este ano atraiu muito mais do que jovens calouros procurando assegurar uma profissão no futuro. Alguns dos candidatos já são profissionais estabelecidos, com família formada, e encaram as universidades como projeto pessoal. Estes ‘‘jovens senhores’’ às vezes procuram nos próprios filhos não só a motivação para voltar a estudar como também auxílio na hora de entender as complicadas fórmulas de física, química e matemática.
No jardim San Remo (zona oeste), por exemplo, a família Romano tem muitos motivos para comemorar. Com dois filhos garantidos no ensino superior - um cursando Engenharia Civil na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e outro Processamento de Dados no Cesulon -, os pais resolveram que agora era a vez deles mesmo encararem os bancos universitários. Celso e Lúcia Pereira Romano, ambos com 44 anos, prestaram concurso respectivamente para Administração e Letras na Universidade Norte do Paraná (Unopar). Os dois passaram e já começam a se preparar para o primeiro dia de aula.
‘‘Os filhos estimularam muito. E a gente tinha vontade de estudar, mas o custo alto da escola que eles frequentavam dificultava bastante. Como eles já estão encaminhados, agora é a nossa vez’’, comemora a caloura Lúcia, que é professora no ensino fundamental da rede pública de Londrina, mas não teve oportunidade de entrar antes em um curso superior. Ela explica que o filho mais velho, Victor, está no último ano de Engenharia e já garantiu estágio remunerado na Sanepar; e o mais novo, que cursa o segundo ano de Processamento de Dados, também conseguiu estágio remunerado na Copel.
‘‘A gente tem que saber esperar. E não existia condição financeira de todo mundo estudar, eles eram prioridade. Sempre frequentaram bons colégios, os cursos eram caros. Como no passado nós não pudemos, agora chegou a hora. É o momento certo’’, aponta o também calouro Celso Romano, que trabalha no departamento financeiro de uma indústria de alimentos em Londrina. Celso até chegou a participar de aulas no curso de Ciências Sociais, mas acabou abandonando por motivos profissionais. Ele diz ainda que, além da satisfação em cursar uma universidade, o mercado de trabalho hoje está muito mais exigente e o diploma, por isso, é importante.
Para passar no vestibular, a ajuda dos filhos foi decisiva, principalmente no mês que antecedeu as provas. ‘‘Fizemos um intensivão. Mas não estava muito confiante, fiquei vinte anos sem estudar’’, aponta Celso. ‘‘A idade madura, no entanto, facilitou muito, principalmente na capacidade de raciocínio e no controle emocional.’’ O calouro acrescenta que fez um pacto com a esposa: não iriam ‘‘chutar’’ nenhuma questão. Deu certo. ‘‘Quando não sabia responder uma questão, ia para outra e assim deu para fazer uma boa prova’’, diz.
Para Lúcia Romano, a satisfação foi dupla: além do curso na Unopar, ela também passou no vestibular de Pedagogia, no Cesulon. Mas a opção ficou mesmo para o primeiro curso - não só pela perspectiva profissional ser melhor, mas também para poder ir para a universidade junto com o marido. ‘‘E a motivação que os filhos dão é muito grande, muito importante. Vamos agora tentar ser os primeiros alunos da sala’’, ela assegura.
A animação dos pais com o vestibular contaminou Victor e Vinícius, que não mediram esforços para ajudá-los. ‘‘Percebi que quando eles passaram foi uma grande realização’’, diz Victor. ‘‘Melhorou bastante, eles estão muito mais animados e a gente também’’, aponta Vinícius.
Enquanto as aulas não começam - para calouros, dia 2 de março -, Lúcia e Celso já começam a equacionar os novos gastos com escola. Somente com mensalidade - contando também o curso de Vinícius no Cesulon - o valor será de aproximadamente R$ 650,00 mensais, sem contar material escolar. ‘‘O dinheiro vai ser mais um desafio. Mas a gente sempre teve uma vida regrada, com muita luta e sacrifício. A gente sabe que nada cai do céu’’, considera o calouro Celso, antes de mandar um recado para os futuros colegas de classe: ‘‘Podem me chamar de tio à vontade’’.

mockup