Atravessaram 70% do século juntos. Foram contemporâneos de revoluções, ditaduras, curtas democracias, depressões e milagres econômicos, mas pouco souberam sobre isso. Passaram incólumes a era da decadência no casamento e a era do divórcio. Também não foram afetados pela rápida industrialização, urbanização e pela pretensa pós-modernidade do País. Implacavelmente, o mundo transformava grandes invenções em banalidades cotidianas em uma linha paralela à existência quase única de um humilde casal de lavradores que escolheram o Paraná para viver suas últimas décadas.
Ontem, Vítor Piva, 92 anos, e Idalina Machado, 86, arrebentaram juntos a faixa de uma inacreditável maratona matrimonial. Desde a tarde fresca de 24 de outubro de 1930, na localidade paulista de Tibiriçá, região de Bauru (SP), onde se realizou o casamento, passaram-se 70 anos ou cerca de 25,5 mil dias. Talvez ninguém se interesse em contar uma história que nunca saiu da zona rural, com sabor de café de sítio servido às cinco da manhã e com cheiro de galinha caipira cozida no fogão à lenha. Problemas renais não impedem que Dona Idalina sirva o marido com a mesma eficiência, mas ele não tem mais tanto apetite, efeito das pedras na vesícula que tanto o incomodam.
Estão no Sítio Alto Alegre, em Jataizinho (21 km a leste de Londrina), há 41 anos e continuam ‘‘na lida na roça quando a saúde ajuda’’. Para as despesas, somam as parcas aposentadorias. Foram desbravadores. Chegaram a Cambé em 1934 e se assustaram com o mato. Aproveitaram o fôlego dos recém-casados e usaram muito a foice. Formaram um respeitável exército de descendentes: 13 filhos (10 filhas vivas, 3 delas morando no mesmo sítio), 32 netos, 46 bisnetos e dois tataranetos.