Casal atravessa o País pedalando
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quarta-feira, 28 de setembro de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Pedalar é um verbo que, depois que se aprende a conjugar - em duas rodas - a gente nunca esquece. Mas, o mundo futebolístico, que já sapecou o nosso ouvido com ''É tuuuaaa Tafarelll'' e Roooonallldiinhoooo'', inventou mais um significado para a palavra, cravejando uma coroa com a expressão para colocar na cabeça de um novo príncipe dos gramados.
Porém, esse Brasilzão que é capaz de reinventar o futebol, produzindo dezenas de craques a cada nova geração, também é pródigo em personagens que, não só com a bola nos pés, como também em duas rodas, são capazes de superar os limites da própria vida.
O jardineiro aposentado Janilton Ferreira, 50 anos, é um desses. Ele só não. Ele e a mulher, a ex-gari Francisca Maria Gomes Ferreira, 47 anos, que embarcou com o marido numa viagem de 11 mil quilômetros de ida e volta de Itajaí (Santa Catarina) até o Norte do País.
Itajaí ficou para trás no dia 10 de outubro de 2004, quando o jardineiro, que vive com uma aposentadoria de R$ 300,00, convenceu a esposa a embarcar na viagem.
O transporte é feito em duas magrelas que, apesar da aparência ''meia-sola'' são resistentes como camelos para enfrentar uma rotina diária de 80 quilômetros - isso se a rodovia estiver em boas condições - e fortes feito burros de carga, carregando 80 quilos de apetrechos indispensáveis para a viagem em 365 dias ao redor do Brasil.
Bicicletas novas, nem pensar. O casal dispensa essa generosidade dos que se impressionam com o estado da ''Rebeca'' - a magrela mais velha.
Ao contrário de outros aventureiros que contam com tecnologias, como o GPS, os dois catarineneses levam uma máquina fotográfica, registrando tudo o que vêem e as pessoas que encontram pelo caminho, e um celular.
Basta um dos dois filhos dar um toque no aparelho, que eles retornam a ligação. ''É para ficar mais barato'', contabiliza Janilton.
Escolher a mais bonita das 180 cidades ou 13 capitais que visitou é tarefa impossível para o casal, tanto quanto imaginar que a viagem toda custou apenas três pneus.
Viajando durante o dia, pernoitando onde a solidariedade das pessoas improvisava um lugar, Janilton e Francisca se arriscam. ''Na Bahia, o calor queima. Na sombra a temperatura é de 40 graus. No asfalto chega a uns 50 graus'', conta Janilson, que desde 1986 é ostomizado. A esposa lembra que se jogou no acostamento umas três vezes para não ser atropelada.
Nesse País, onde um Janilton e uma dona Francisca trocam os chinelos da aposentadoria por duas rodas, o que não faltam são personagens interessantes. Gente simples e ilustre cruzou o caminho do casal. Entre essas pessoas, um médico anônimo que encontraram em Echaporã (SP) e que tratou deles gratuitamente.
Nessa lista de amigos pelo País - registrada em fotos para confirmar as histórias do casal -estão alguns famosos, como os atores Marcos Frota, Eri Johnson e o humorista Bussunda.
Essa galeria reserva um espaço especial para o presidente Lula. Ao chegar em Brasília, o casal estendeu uma faixa em frente ao Palácio do Planalto, reivindicando uma audiência com o presidente.
Nos 15 minutos em que esteve com Lula, o cicloturista pediu para melhorar o salário dos trabalhadores, o que acredita ainda não se confirmou.
Janilton pediu uns trocados ao Presidente para seguir viagem mas do bolso de Lula não saiu um vintém.
Assim que chegarem a Itajaí, o casal se prepara para outra viagem. Desta vez para o Uruguai.
Nós por aqui, desejamos boa sorte ao casal e, para incentivar vai lá um...pedala Janilton e Francisca, pedala...Mais dois brasileiros, craques em reinventar a vida.


