Marcelo AlmeidaPrisãoJosé Carlos e Sandra só saem com escolta: ‘‘Nossa vida acabou quando passamos a ser vítimas desses policiais’’Um casal de microempresários de Curitiba está denunciando policiais civis por tentativa de extorsão e ameaças de morte. José Carlos de Araújo Miranda, de 35 anos, e Sandra Peixoto Miranda, de 31, dizem que há quase dois anos são vítimas de perseguições, telefonemas anônimos e tiros deflagrados por policiais que estariam querendo se vingar de uma denúncia feita por José Carlos. Há um mês, o casal teria até sido sequestrado e preso quando ia ao banco pagar uma conta, em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba). Desde então, os dois vivem o pesadelo de não poder sair de casa sem a escolta de policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar, designada pela Procuradoria de Investigação Criminal (PIC) para proteger o casal 24 horas por dia.
‘‘Nossa vida acabou depois que passamos a ser vítimas desses policiais’’, diz José Carlos, que diz ter sido obrigado a parar de trabalhar desde que começou a ser ameaçado. O pesadelo vivido pelo casal teve início há dois anos, quando um cheque no valor de R$ 6.500,00 emprestado pelo microempresário a um conhecido parou nas mãos de um advogado. Como o cheque não tinha fundos - José Carlos diz ter entregue o cheque pré-datado apenas como caução para uma dívida do amigo -, o microempresário começou a sofrer ameaças de ter seu nome incluído num inquérito policial por estelionato.
As ameaças talvez não teriam assustado tanto José Carlos se ele não tivesse medo de ser alvo de um novo processo criminal. Em 1996, ano em que as ameaças começaram, o micromepresário havia acabado de cumprir pena por um estelionato praticado alguns anos antes. Foi provavelmente esta informação, segundo José Carlos, que despertou o interesse dos policais em investir na tentativa de extorsão. ‘‘A situação é grave... Você tem antecendentes criminais’’, teria avisado um dos policiais.
As denúncias feitas pelo casal junto à PIC estão apoiadas em várias fitas cassetes que registram diálogos com policiais do 5º Distrito. Nas fitas, ouvem-se conversações entre José Carlos, a esposa dele e o investigador Maynard Moreira, que apresentava-se como delegado do distrito e propunha ao empresário o pagamento de R$ 6.500,00 para os policiais e para o advogado que tinha o cheque.
‘‘Se fizermos uma negociação, rasgo o processo na hora’’, teria dito o investigador, que sugeriu que o carro do empresário fosse entregue para ‘presentear’ o delegado do distrito na época, Armando Marques Garcia. Como José Carlos se negava a pagar e alegava ter sido envolvido no episódio por engano, o investigador teria dito: ‘‘Sabemos que você é inocente, mas agora nos queremos nossa parte’’.
Orientado pelo seu pai, um juiz aposentado, José Carlos decidiu denunciar as ameaças e tentativas de extorsão. Depois da denúncia oferecida pelo Ministério Público, que resultou na decisão do Judiciário de determinar a busca e apreensão do inquérito policial contra o empresário, os policiais perceberam que José Carlos havia ‘vazado’ a história. Desde então, a casa de José Carlos e Sandra passou a ser constantemente apedrejada durante a noite e as ameaças de morte incluíram também o filho de 2 anos do casal, Guilherme, e a mãe de Sandra.
O casal afirma que já denunciou o caso à Secretaria Estadual de Segurança Pública, na época comandada pelo atual secretário da Casa Civil, Cândido Martins de Oliveira. Armando Marques Garcia, delegado que teria participado da tentativa de extorsão, nega que a versão do casal seja verídica e diz que Sandra e José Carlos são ‘‘dois deliquentes que inventaram uma história falsa’’.
Apesar do medo de sofrer novas ameaças, o casal resolveu fazer a denúncia para pedir o apoio do governo estadual para a punição dos envolvidos. ‘‘Até agora ninguém fez nada e não aguentamos viver trancados em casa’’, diz Sandra.

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