Casais homossexuais batalham pela adoção
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quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Fabiana Caso<BR>Agência Estado 
São Paulo - Uma fotografia do cotidiano doméstico. A menina Theodora Rafaela Carvalho da Gama, de 6 anos, acorda, toma café da manhã, faz lição de casa, toma banho e prepara-se para ir à escola. Antes, almoça a comidinha feita pelo pai cabeleireiro, que atende suas clientes no período da tarde para poder cuidar da filha pela manhã. Depois, ela vai à escola. E, à noite, os pais a levam para a casa da bisavó, porque dão aulas em sua escola de cabeleireiros. Finalmente, vão pegá-la e colocam-na para dormir. Um cotidiano igual ao de qualquer criança saudável, não fosse pelo fato de, neste caso, a palavra ''pais'' ser usada literalmente: são dois pais.
Os cabeleireiros e colunistas sociais Júnior de Carvalho, de 44 anos, e Vasco da Gama Filho, de 35 anos, foram os primeiros homossexuais brasileiros a conseguir o registro de dupla paternidade para adoção. Eles têm uma união estável há 15 anos e moram desde 1997 em Catanduva, onde mantêm um salão de beleza e uma escola de cabeleireiros. ''Como todo casal, passamos por várias fases. Teve o namoro, o casamento e depois começamos a pensar em constituir família'', conta Júnior.
Em 1998, entraram com o primeiro pedido de adoção, indeferido pelo juiz. Há dois anos, tentaram novamente e o mesmo juiz acatou o pedido. Mas, a princípio, aconselhados por um advogado, pediram a adoção apenas em nome de Vasco, como solteiro. Na escolha da criança a ser adotada, a única exigência era a de que fosse uma menina. ''Não sei se conseguiria ficar fazendo programas com um menino, como ir a um estádio de futebol'', justifica Júnior.
Tudo aconteceu rapidamente e, há um ano e meio, receberam Theodora. ''É uma alegria ter uma criança em casa, muda totalmente o ritmo. Nós ensinamos e também aprendemos muito'', fala Júnior. ''Descobrimos um amor incondicional'', completa Vasco. Depois de algum tempo de convivência, quando a menina já chamava os dois de pai, entraram com o pedido de dupla paternidade, autorizado por uma juíza de Catanduva.
Pela perspectiva da lei
O Brasil é um dos recordistas em número de crianças abandonadas. Não há estatísticas exatas, mas um antigo levantamento apontou que há pelo menos 100 mil menores nessa condição. A psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, autora do livro ''Pais e Filhos por Adoção no Brasil'' (Juruá Editora), é uma autoridade no assunto adoção. ''Estudos internacionais concluem que filhos de pais heterossexuais e homossexuais não diferem na orientação sexual, identidade ligada ao sexo biológico, desenvolvimento social e afetivo, sofrimento de distúrbios emocionais, independência e amor próprio'', explica Lídia. ''Mas mostram que a criança de pais ou mães homossexuais sofre mais discriminação.''
Em sua opinião, só o quesito orientação sexual não deve ser motivo para recusa ou aceitação de uma adoção. ''O adotante deve ser avaliado. Se o casal é afetivo, estável, responsável e compreende o que é educar uma criança e tudo que isso implica, é bom candidato. Porque, para uma criança que mora em uma instituição, é absolutamente depressivo não ser objeto de afeto.''
Em tempos de novas dinâmicas familiares, a lei caminha devagar. A advogada Ivone Zeger, autora do livro ''Como a Lei Resolve Questões de Família'' (Mescla Editorial), explica que, como a lei não reconhece a união estável homossexual, também não prevê a adoção por parte desses casais. ''No entanto, é permitido que solteiros com qualquer orientação sexual adotem crianças.''


