Casados para a vida inteira
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
''Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?''. Ambos responderam ''sim'' e até os dias de hoje cumprem essas palavras juradas no altar, diante de uma celebração modesta e convidados a perder de vista.
Era 18 de outubro de 1952, quando irmãos de duas famílias nascidas no interior de São Paulo se casaram na Igreja Matriz de Arapongas (Centro-Norte). No dia, caía um dilúvio a ponto de tingir os vestidos das noivas de pura terra vermelha. Mas se a crença popular diz que ''chuva em dia de festa de casamento dá sorte'', então o universo estava mesmo conspirando a favor.
Passados 60 anos, nesta semana eles voltaram à igreja para celebrar as Bodas de Diamante e festejar com familiares e amigos. A longevidade da vida a dois seria o fato mais curioso dessa história, se não fosse o parentesco dos noivos.
Dona Maria Vechiatto Paucic, de 76 anos, que é casada com José Paucic (82), é irmã de Primo Vechiatto (82), marido de Therezinha Paucic Vechiatto (80), irmã de José. Ou seja, os irmãos Vechiatto casaram-se com os irmãos Paucic e o resultado disso são 16 filhos, 35 netos e 37 bisnetos.
E mesmo com o passar dos anos ainda é perceptível a troca de carinho e cumplicidade entre eles, que não se desgrudam em nenhum momento. ''Ah, a gente se acostuma demais. É muito tempo junto. Mas tem um detalhe, não pode brigar muito. Quando um está nervoso, é melhor ficar quietinha até a raiva passar'', comenta Maria, que nasceu em Monte Azul, no interior de São Paulo.
Ela e o irmão Primo vieram ainda crianças para o Paraná, acompanhando a família em busca de trabalho na lavoura. Essa mesma trajetória foi cumprida por Therezinha e José, nascidos em Jaboticabal, também no interior de São Paulo. Coincidência ou não, os casais também se conheceram da mesma forma.
''Era um baile de aniversário. A Maria estava fazendo 15 anos e estava com um vestido de três camadas. A gente ficou trocando olhares a noite toda, até que ela me deu um cravo vermelho'', relembra aos risos, José Paucic.
O namoro foi formalizado entre as famílias e o casamento saiu um ano depois. ''Para nós, a união deles é um exemplo. Eles assistem televisão e fazem todas as refeições juntos. Se um fica longe por um tempinho, o outro já começa a ficar preocupado'', conta a filha caçula Rosa Paucic.
Para José, a companheira é como um amuleto da sorte. Ele já passou por cinco cirurgias e só se sentia aliviado por saber que Maria estava por perto. ''Tudo é melhor com ela'', declara o agricultor aposentado, que ao ser questionado sobre o que mais gosta na esposa, vai logo respondendo sem cerimônia: ''é de dormir com ela'', conta, aos risos.
Permissão
Em décadas passadas, o matrimônio era encarado como um compromisso sério, para a vida toda. Para casar, os rapazes tinham que pedir permissão aos pais das moças e não podiam sequer abraçar a amada. O casal que era visto na rua ''agarradinho'', era motivo de um escândalo. Também era muito comum as pessoas se casarem cedo, bem jovens.
''Hoje mudou da água para o vinho'', completa Therezinha, ao relembrar que na época de ''mocinha'', só podia frequentar as ''brincadeiras'', conhecidas como bailes, na companhia de irmãos mais velhos. Foi em um dessas ocasiões que ela conheceu o marido. ''Foi amor à primeira vista, mas a gente ainda não se conhecia. Até que um dia o Primo me tirou para dançar e já foi logo falando de namoro. Ele é romântico. No dia seguinte a gente marcou um encontro no parque e pouco tempo depois ele estava em casa, falando com meu pai'', lembra a costureira aposentada.
Assim como José e Maria, Primo conta que se casou depois de um ano de namoro. ''Naquele tempo, tinha prazo para casar e regra para namorar. Eu tinha que respeitar os pais dela. Só podia sair com aos sábados ou domingos, até as 22 horas'', conta, em tom de brincadeira.
Hoje, os casais se encontram semanalmente e, quando possível, saem para passear, mas adoram passar horas conversando. Para eles, que completam 60 anos de casamento, as relações conjugais de hoje são um péssimo exemplo. ''As pessoas não são fiéis como antigamente. Hoje, existe muita liberdade nos relacionamentos e falta muito respeito, educação e obediência aos pais'', afirma Primo.
Mas o que todo mundo deve estar se perguntando é se existe um segredo para viver tantos anos juntos. A resposta é quase unânime: ''paciência e tolerância'', diz José e Primo. Mas e o amor? ''Ah, esse é infinito'', responde Therezinha.
E assim, como uma história de amor, o final com certeza acabará com um ''viveram felizes para sempre'', pois se depender de Primo e Therezinha e Maria e José viverão juntos até que a morte os separe. ''Se Deus quiser'', completa Maria.


