Em coração de mãe, sempre cabe mais um. É verdade. Ainda mais para garantir um teto para os filhos, parentes ou amigos. Por isso, não é raro encontrar imóveis superpovoados em bairros pobres. Espaços restritos, ideais para famílias pequenas, abrigam mais de dez pessoas. A falta de privacidade e conforto não parece ser suficiente para diminuir a felicidade de quem, via de regra, esperou por muito tempo para ter a casa própria.
O tamanho da acolhida, no entanto, é diretamente proporcional aos problemas. Nas casas superpovoadas, qualquer atividade rotineira transforma-se num verdadeiro martírio. É necessário ter muita paciência para ir ao banheiro, escovar os dentes, tomar banho. Tudo por causa da fila constante e, quase sempre, demorada.
É assim o dia-a-dia no lar simples do segurança Mauro Berto, morador da Gleba Primavera (Zona Norte de Londrina). A casa de 30 metros quadrados é suficiente para proteger das intempéries do clima o homem de 47 anos, a esposa Alcilda e os nove filhos do casal.
Uma proteção que parece óbvia para quem sempre viveu debaixo de um teto, mas que faz muita diferença para o casal que já morou, ''por muitos anos'', debaixo de lona. ''O pior já passou. Antes, a gente não tinha nem onde morar. Agora, a gente está no céu. O importante é ter um teto. Deus proverá o resto'', afirma.
A providência divina e o próprio esforço, uma vez que planos de melhorar a casa não faltam na cabeça do segurança. O sonho é construir dois novos cômodos, um banheiro e um quarto, no quintal. E assim contar com um pouco mais de conforto.
As ampliações são comuns em bairros pobres e casas populares construídas por companhias de habitação. Alvo de críticas de especialistas, as reformas por conta própria são a única alternativa de melhoria de qualidade de vida. E o simples aumento de espaço já é um ganho considerável.
O arquiteto e professor universitário Gilson Bergoc explica que as relações entre os ocupantes e o imóvel têm de ser levadas em conta na elaboração do projeto das casas populares. E que o espaço ''necessário'' varia de acordo com a cultura do local.
''As condições climáticas e culturais em que a sociedade vive, assim como a disponibilidade de espaço, são parâmetros que influenciam na definição do espaço. Um esquimó não pode viver num lugar muito grande por causa da necessidade de aproveitamento do calor'', exemplifica.
Hoje, as casas populares em Londrina têm em média 30 metros quadrados. O espaço inclui um cômodo que serve de sala e cozinha, um quarto e um banheiro. Tamanho semelhante a quitinetes e lofts de alto padrão localizados em áreas nobres, mas onde geralmente mora muito menos gente.
Outro problema é o custo. O valor médio da casa popular gira em torno de R$ 15 mil, sem contar mão-de-obra e outras despesas necessárias para viabilizar a infra-estrutura. Dependendo da melhoria, o preço se tornaria inviável para o nível de habitação popular. ''O ideal é que as pessoas ganhassem mais dinheiro e assim pudessem morar melhor'', destaca o engenheiro Paulo Lopes, mestre em avaliação pós-ocupação.
De acordo com a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), o projeto das casas populares prevê ampliações. Assim, o segurança Mauro Berto divide com inúmeros moradores de conjuntos habitacionais em Londrina o mesmo sonho de erguer mais cômodos e ampliar o lar.

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