Casa Dia oferece acolhimento para uma melhor qualidade de vida
Implantado pela Prefeitura de Londrina, serviço atende gratuitamente 20 idosos, oferecendo atividades e garantindo proteção
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de maio de 2019
Implantado pela Prefeitura de Londrina, serviço atende gratuitamente 20 idosos, oferecendo atividades e garantindo proteção
Pedro Marconi - Grupo Folha 

Desde o final de abril, 20 idosos vêm sendo atendidos na Casa Dia, serviço implementado pela Prefeitura de Londrina. O objetivo do projeto é prevenir situações de risco pessoal e social para os idosos, garantindo sua proteção quando os familiares não possuem condições de prover os cuidados durante o dia.
O atendimento é semi-integral e funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, com o transporte ofertado pelo município. Tudo de forma gratuita. “O serviço é para idosos que possuem um certo grau de dependência. Ele proporciona acolhimento, convivência, favorece a qualidade de vida deles”, destaca a secretária municipal do Idoso, Andrea Ramondini Danelon. “É algo que foi bem aceito. A população está envelhecendo cada vez mais e com isso as demandas aumentam. É algo complexo e estamos buscando implementar novos serviços”, completa.
Londrina possui aproximadamente 70 mil pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 13% da população. A instituição que atende os idosos por meio da Casa Dia é a Cristma – Movimento Cristo te Ama, que venceu chamamento público por dispor de todos os critérios exigidos pelo município. O investimento é de R$ 960 mil por período de dois anos, sendo R$ 2 mil por mês para cada idoso recepcionado. Os recursos são provenientes do Fundo Municipal dos Direitos do Idoso.
"Aqui o que eles mais gostam é poder conversar"
Marisa Menegazzo Tamarozzi -
“Já tínhamos uma demanda por um atendimento deste tipo oriunda de serviços socioassistenciais, gerando uma fila de espera. Temos vagas que foram preenchidas por indicação da diretoria responsável por visitar famílias com idosos, vendo a necessidade deles de uma proteção a mais por não terem companhia. Esses idosos podem ficar durante dois anos. Mas se a família melhorar a situação de vida dela ou o próprio idoso passar a ter uma vida mais ativa, pode deixar a casa e outra pessoa ocupar”, explica.
Na Casa Dia, aqueles que são recebidos têm à disposição refeições com cardápio elaborado por nutricionista, assistência por equipe técnica multidisciplinar, composta por psicólogo, enfermeiros, fisioterapeuta e cuidadores, entre outros profissionais, atividades recreativas e educativas e acompanhamento familiar. Ainda são desenvolvidas oficinas para progredir seus conhecimento e habilidades, como artesanato. “Temos idosos que não levantavam da cadeira de rodas, que apresentavam grau profundo de depressão, e que estão melhorando”, aponta Danelon.
CONVERSA
De acordo com a representante da instituição responsável por executar o projeto, Marisa Menegazzo Tamarozzi, o que os idosos mais precisam, muitas vezes, é conversar. “Por ficarem sozinhos, porque a família precisa trabalhar, acabam não tendo este momento; eles chegam até mesmo a uma situação de isolamento. Aqui o que eles mais gostam é poder conversar conosco, uns com os outros. Também adoram jogar dominó. É ótimo para a memória”, cita. A maioria dos contemplados tem algum tipo de dificuldade motora ou intelectual.
Para a dona de casa Maria de Lourdes Beraldi Salvatori, o atendimento tem colaborado para o bem-estar de sua tia, a aposentada Maria de Lourdes Salvador, 77. “Por conta das limitações não cozinha mais, tem adversidades para tomar banho e na instituição eles mantém a higiene dela, dão comida. Para ela o serviço é um 'céu”, compara. “Tenho os afazeres de casa e não consigo dar assistência a todo momento para ela”, relata.
AMPLIAÇÃO
Proposta como a da Casa Dia já existia em Londrina, porém somente na rede privada. A secretária do Idoso afirma que há a intenção de aumentar o número de vagas ofertadas, o que foi proposto durante Conferência Municipal dos Direitos do Idoso, realizada recentemente. “Outros serviços que atendemos idosos são nos centros de convivência, que ao todo são três: nas regiões leste, oeste e norte. Nestes locais a média é de três mil atendimentos. O bom da Casa Dia é de que evita a institucionalização”, ressalta Danelon.
'É como se fosse uma família'
Mais do que uma longa trajetória de vida, os idosos atendidos na Casa Dia carregaram histórias de obstáculos e superações. Jair de Souza, 61, vive na Toca de Assis, fraternidade ligada à Igreja Católica, há cerca de um ano e meio, porém já chegou a morar nas ruas. “Estava na Morada de Deus e meu prazo de permanência estava para acabar. Os frades da Toca de Assis foram lá levar doação e sabendo isso deixaram viver com eles, cuidando de mim”, relembra.

Pelo serviço ofertado pelo município já criou carinho, mesmo com o pouco tempo de convivência. “Aqui para mim é o mesmo que estar em casa. O que fazem é muito bom e melhor do que estar na rua. É como se fosse uma família. Na casa faço pinturas, desenhos, jogo dominó. Consigo me distrair. Quando acontece de não vir sinto falta. No momento que falaram na Toca de Assis que ia passar o dia em outro lugar fiquei cismado, porém ao saber que era a Fundação Tamarozzi já quis vir logo.”

Moradora da região leste de Londrina, Maria dos Santos, 79, sofre de Alzheimer, porém vem sendo acompanhada na Casa Dia com atividades para retardar o processo de evolução da doença. “Gosto muito de ficar na instituição. A comida e o café são bons”, se diverte.

Com deficit motor e complicações na fala, Adão Gomes da Silva, 63, reside com uma companheira, mas que em decorrência da idade não consegue ofertar o cuidado que ele demanda. Ele passou um tempo nas ruas e coletando reciclagem, e depois passou a dividir a casa com uma mulher, com os dois dividindo os gastos. “Na Casa Dia tenho fisioterapia e isso me ajuda. Estou contente aqui. Na época que não tinha essas limitações gostava de tocar violão”, emociona-se.
Geriatra chama atenção para socialização
Para o geriatra Fábio Garani, de Londrina, espaços de vivência e cuidados para idosos são importantes para que este público possa ter condições de envelhecer com saúde. “Precisamos de uma rede de sustentação para facilitar a vida dessas pessoas, sejam aquelas que têm ou não um grau de dependência. O idoso precisa manter a vida ativa e para isso são positivas aulas de dança como aprendizagem e não só para passar tempo, artesanato, aulas de culinária, manuseio de equipamentos de marcenaria”, elenca.
O especialista chama atenção para a questão social, que é tão essencial quanto alimentação saudável e prática de exercícios físicos. “A depressão é um mal que vem acometendo muito os idosos. Quando eles estão com mais pessoas, ainda mais da mesma faixa etária, dividem seus sucessos e fracassos. Atividades em grupo, por exemplo, evitam remédios, pois já são o antídoto para a tristeza e solidão”, afirma.
Garani defende trabalhos que apostem na prevenção por um envelhecimento saudável desde criança, iniciando até mesmo na escola, para ir cultivando uma consciência sobre este tema. Segundo ele, ações para idosos com educadores físicos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas ajudam a evitar doenças, garantido qualidade de vida. “Temos tido uma população de idosos tão grande, que centros para eles cabem um em cada bairro atualmente, além de locais para convivência.”


