Casa pertenceu ao pioneiro japonês Shinquichi Agari, que chegou em Londrina em 1932
Casa pertenceu ao pioneiro japonês Shinquichi Agari, que chegou em Londrina em 1932 | Foto: Anderson Coelho



Na avenida Paulista, em São Paulo, um imóvel projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo em 1930 ficou conhecida como "Casa das Rosas". Londrina também possui uma "Casa das Rosas" para chamar de sua. Embora não tenha sido construída em alvenaria e tampouco possua o estilo clássico francês da xará paulistana, a casa de peroba-rosa que ficava na rua Anita Garibaldi, jardim Agari (região central) de Londrina, também era famosa pelas rosas cultivadas em seu jardim. Agora a edificação histórica está sendo reconstruída em outro local, no campus da UEL (Universidade Estadual de Londrina), para abrigar o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros.

O primeiro proprietário da casa foi Shinquichi Agari, que era conhecido entre os amigos como Paulo Agari. Ele nasceu na província de Yamaguchi, Japão, em 20 de março de 1896. Agari interrompeu o curso de engenharia naval para vir ao Brasil. Trabalhou inicialmente na fazenda Guatapará (SP), onde era funcionário de uma usina de açúcar. Posteriormente, estudou o idioma português na capital paulista e casou-se com Hordália Santos Agari, em 1925, com quem teve três filhas: Odette, Ruth e Iveth. O pioneiro chegou em Londrina em 1932 para trabalhar como agrimensor e corretor da Companhia de Terras do Norte do Paraná.

A advogada Iveth Santos Agari Jorgensen, que reside em São Paulo, lembra das rosas plantadas no quintal. "No pomar tínhamos todo tipo de frutas. Papai plantava muitas verduras e flores e era famoso porque fazia vários enxertos e a nossa casa era como se fosse uma pequena Holambra", disse, em entrevista à FOLHA por telefone. Segundo ela, além das muitas rosas, havia também dálias e lírios na propriedade. "A variedade de flores que existia na chácara era muito grande, mas o que mais vendíamos eram as rosas. E papai foi autodidata para realizar esse cultivo", enalteceu.

Jorgensen ressalta que seu pai foi muito cuidadoso para escolher o local de construção da casa. "Ele escolheu a parte mais alta da propriedade, para evitar que a residência sofresse alguma enchente", destacou. "Eu fui criada ali. Estudei no colégio estadual no primário e depois continuei os estudos no ginásio estadual. Me recordo que a casa tinha um porão grande", destacou, observando que seu pai transformou a propriedade de um alqueire e meio em uma espécie de campo experimental para árvores raras. "Tinha várias palmeiras delimitando a entrada da chácara", destacou.

Agari decidiu vender a chácara porque parte de sua propriedade foi desapropriada para a construção da avenida Higienópolis. "Papai ficou muito desgostoso. Depois disso teve várias tentativas políticas de transformar a outra parte da propriedade em um parque ligado a uma escola", apontou. Agari deixou Londrina em 1951. Ele foi responsável pelo loteamento da Vila Agari, em 1937; e do Parque Agari, em 1939; ambos em Londrina. Em 1950 loteou a Chácara Agari em Maringá.
"Papai foi um desbravador. Loteou terrenos em Apucarana, Marialva, Paranaguá e nas praias de Pontal do Paraná. Foi uma pessoa com muita visão de futuro e desenvolveu essa região toda", destacou Jorgensen. Agari morreu na década de 1970 e Hordália morreu em 1990.

PRESERVAÇÃO
Após a desapropriação, a residência foi vendida à família Kitahara. Quando uma construtora decidiu erguer um prédio no local, a casa foi doada para a UEL, em 2006, a pedido do professor de arquitetura da instituição, Humberto Yamaki. O objetivo era preservar a técnica construtiva e a arquitetura da época. O professor realizou o levantamento arquitetônico da casa, a numeração de cada peça de madeira, a desmontagem e o transporte. "Isso é tão importante quanto a adaptação e a construção", destacou Yamaki.

Antonio Carlos Zani, também professor de arquitetura da UEL, foi um dos responsáveis pelo projeto de reconstrução da casa. "Como ela está sendo montada dez anos depois de sua doação, muita madeira se perdeu. O primeiro desafio foi conseguir quem montasse a casa, pois a UEL não tinha mão de obra disponível e nem recursos", apontou.

Em 2017 foram realizadas pela equipe do Neab campanhas e eventos a fim de arrecadar verba para a construção da nova sede. Conforme informou a diretora do núcleo, Maria Nilza da Silva, foram arrecadados aproximadamente R$ 11 mil. "Como parte da madeira que o professor Yamaki tinha marcado se perdeu, tivemos que fazer um novo projeto de montagem", destacou Zani. Parte da madeira que se perdeu foi reposta com material oriundo das perobas-rosas que caíram no campus. A casa de madeira tem 83 m².

A obra de reconstrução está com a fundação e o madeiramento da casa concluídos, inclusive com a instalação do telhado. Faltam ainda as portas e janelas e a instalação das redes elétrica e hidráulica, itens que devem demandar outros R$ 20 mil.


HOMENAGEM A YÁ MUKUMBI

A sede do Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros) da UEL receberá o nome da líder do movimento negro em Londrina, Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumby, que foi morta aos 63 anos, no dia 3 de agosto de 2013. "O Conselho Universitário aprovou essa homenagem (em setembro de 2017) a nosso pedido porque a dona Vilma atuou por muito tempo na universidade. Ela concedia entrevistas, fazia oficinas, participava de debates. Ela foi uma grande liderança não só do movimento negro de Londrina e teve reconhecimento nacional", apontou a diretora do Neab, Maria Nilza da Silva.

O professor de História, Jairo Queiroz Pacheco, que também integra o Neab, ressaltou que a dona Vilma foi a mais expressiva e que teve mais clareza quando se discutiu o sistema de cotas da UEL. "No processo de regulamentar e criar o sistema de cotas houve participação não só dela, mas a dela foi a mais expressiva e que mais mobilizou fora da UEL. Quando se fala hoje de sistema de cotas parece uma coisa banal, pois 70% das universidades públicas possuem esse sistema, mas em 2004 quando foi discutido a UEL foi a 4ª instituição a adotar o sistema de cotas. Foi um posicionamento de vanguarda e provocou muita polêmica na época", destacou.

O Neab atende hoje sobretudo à formação dos professores para cumprir a lei nº 10.6399/2003, que tornou obrigatório no Brasil o ensino de histórias e culturas africanas e afro-brasileiras. De acordo com a diretora do Neab, a extensão de atendimento da comunidade é bastante grande. "O Neab oferece cursos, realiza atendimento de alunos e toda a comunidade universitária se beneficia em relação aos estudos afro-brasileiros e africanos", apontou.

"O Neab terá uma estrutura melhor para acolher as pessoas e desenvolver o nosso trabalho. A gente não espera grandes mudanças, espera que o local acomode melhor. A gente vai fazer um memorial contando a história da casa e a história da dona Vilma. Assim como a Casa do Pioneiro e a capela são visitadas por escolas, provavelmente a Casa Yá Mukumbi também será", explicou Silva. Ela ressaltou que existe toda uma demanda das escolas da educação básica de Londrina para trabalhar essa temática e vários projetos que hoje são desenvolvidos no Neab poderão ser realizados com uma estrutura melhor.

Várias instituições contribuem com a construção da sede do Neab, por meio de doações. Além de integrantes do NEAB, do CTU e da comunidade, também estão envolvidos no trabalho a prefeitura do campus e os professores Jairo Pacheco, Gilson Bergoc (diretor de Planejamento e Espaço Físico), Ronaldo Baltar (diretor do CCH) e Jorge Marão (diretor do CTU).

'Ela cumpre o papel de preservação da memória'

O professor de História, Jairo Queiroz Pacheco, destacou que a remontagem da casa da família Agari no campus universitário é uma contribuição importante da UEL, porque ela ficará próxima da casa do pioneiro (que também foi transferida para a UEL em seu formato original) e da réplica da primeira catedral de Londrina. "Esse triângulo vai formar um espaço que vai preservar a forma de construir a cidade que não existe mais. Você tem hoje a Vila Casoni e a Vila Brasil, onde várias casas de madeira ainda existem, mas a tendência é que essas construções diminuam ou eventualmente até desapareçam", ressaltou o professor, que é diretor do Proplan (Planejamento e Desenvolvimento Acadêmico da Pró-reitoria de Planejamento).

Pacheco observou que na Vila Casoni, área central, ainda é possível perceber como era o bairro pela quantidade de casas de madeira que ainda existem, mas na Vila Brasil o panorama já mudou muito. "Iniciativas como essa de trazer para o campus esses imóveis são uma contribuição para manter um componente importante para a memória da região a longo prazo. Quando não existirem mais casas de madeira na cidade, existirão essas que estão aqui na UEL e que não sofrem o processo de especulação imobiliária e tudo o que leva ao desaparecimento das casas", apontou.

Segundo ele, a redução do número de casas de madeira faz parte da dinâmica da cidade. "As cidades mudam, evoluem. Trabalhar com memória não é só tombar e deixar intocado, é também registrar e em alguns casos fazer isso quando possível. Uma casa de madeira pode ser desmontada e montada em outro lugar e preservar com outro uso, mas preservando a técnica construtiva, o desenho e o formato que não são conhecidos para uma pessoa nascida nos dias de hoje. Ela cumpre o papel de preservação da memória."

SERVIÇO
Quem quiser contribuir com o Neab pode telefone para (43) 3371-4599

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