Imagens que traduzem a vida da Cidade. Detalhes que escapam aos olhos acostumados a ver sempre os mesmos locais, prédios e monumentos. Particularidades que revelam a quem vem de fora uma Londrina diferenciada de qualquer outro município. Essas características definem os cartões-postais feitos por Carolina Pagani, de 21 anos, em seu trabalho de conclusão do curso de Desenho Industrial nas Faculdades Integradas Norte do Paraná (Unopar). O tema escolhido: cartão-postal de Londrina, em seus 62 anos de idade.
‘‘A intenção é mostrar que o cartão-postal pode transmitir a alma e a emoção da Cidade. Londrina recebe muitos visitantes que a reconhecem como cidade dinâmica e moderna. Em contrapartida, os cartões-postais existentes não correspondem a esta imagem, dando a idéia de uma cidade estática e triste’’, resume a estudante.
O trabalho de Carolina Pagani começou em março deste ano. Ela recolheu cerca de 30 cartões-postais à venda em Londrina, pesquisou os eventos que ocorrem na Cidade todos os anos, leu sobre fotografia e semiologia. Os conhecimentos básicos da disciplina de fotografia, durante o curso, foram postos à prova. Com a máquina fotográfica sempre à mão, partiu em busca de uma Londrina ainda a ser descoberta. ‘‘Fui atrás da vivência do povo, das peculiaridades da Cidade. Aprendi a andar por Londrina. Vi coisas que nem sabia que existiam.’’
Carolina bateu cerca de 500 fotos. Escolheu 25 para a apresentação do trabalho. As imagens mostram enfoques novos. Ela anexou fotocópias de velhos cartões-postais, como uma panorâmica do Estádio do Café completamente vazio e vistas aéreas do Lago Igapó e do Museu. ‘‘Esses cartões seguem o mesmo padrão, têm a mesma cara. Mostram imagens sempre abertas, sem detalhes. Muitos são feitos de avião, com ângulos bem distantes do dia-a-dia dos londrinenses. São frios, não transmitem emoção. Poderiam ser de qualquer outra cidade. Não há nada que apresente as coisas interessantes de Londrina, que a diferenciam como cidade.’’
Durante todo o ano, Carolina Pagani fotografou o Festival de Música, o de Teatro, o de Dança, a Exposição Agropecuária, visitou pontos turísticos e de lazer como lago Igapó, Museu, Zerão e Parque Arthur Thomas. Enfocou ângulos diferentes. Mostrou vida e movimento nas imagens congeladas.
Na foto do Lago Igapó 1, Carolina optou pelos prédios ao fundo e não pelas mansões ou a barragem. Sua fotografia do Lago Igapó 3 revela uma beleza difícil de ser vista por quem passa pela ponte, a caminho da Universidade: Carolina exibe um lago aconchegante, rodeado por uma vasta e colorida vegetação. ‘‘Desci vales, andei por bosques, fiz muitos caminhos diferentes e desconhecidos.’’
Para fotografar a Catedral - geralmente olhada de cima pelos cartões-postais tradicionais ou, então, com destaque para a fachada - Carolina enfocou uma lateral da igreja, com pessoas passando por perto. O movimento das pessoas também é captado numa bela foto do Zerão, com crianças brincando nos balanços e gangorras do parque. ‘‘Viajo muito e tenho o hábito de comprar cartão-postal. Os cartões daqui não chamam a atenção de um turista. É preciso mais emoção.’’
Para flagrar o hábito de caminhada dos londrinenses, Carolina foi à pista de cooper que fica às margens do Igapó 1. Ela mostra parte do lago, bicicletas encostadas na beira da água, pessoas sentadas no gramado, outras caminhando. Na parte histórica, Carolina selecionou detalhes da arquitetura do Museu Padre Carlos Weiss, clicou uma casa de madeira vermelha lembrando as primeiras construções de Londrina e não se esqueceu do suntuoso casarão construído pelo pioneiro Celso Garcia Cid na esquina da Higienópolis com Tupi, que hoje abriga uma agência bancária.
Os prédios, com casas e a luz do sol ao fundo, foram colhidos pela lente da estudante no sentido centro/Quebec. Uma árvore contorcida exibe um pouco da vegetação encontrada no Parque Arthur Thomas. O tradicional Colégio Mãe de Deus é o tema de um dos cartões-postais de Carolina. A famosa casa com duendes no jardim, em frente ao casarão da família Garcia Cid, também foi ‘imortalizada’ pela estudante.
Uma foto que retrata pessoas sentadas às mesas ao ar-livre numa sorveteria da avenida Higienópolis transmite a sensação de lazer que deve ser desfrutada por quem frequenta o local. O que ajuda a compor a harmonia da foto é o canteiro central da avenida, lembrado pela câmara de Carolina.
Entre os eventos que fazem parte do calendário oficial de Londrina, a estudante fotografou um espetáculo de teatro apresentado no Calçadão. A foto reproduz o festival de cores e animação dos grupos que tomam conta dos palcos e das ruas durante os festivais realizados todos os anos.
No Festival de Dança, Carolina congelou um instante que traduz a leveza dos movimentos dos dançarinos no palco do Cine Teatro Ouro Verde.
O orientador de Carolina, professor Eduardo Ferrarin, elogiou bastante o trabalho da aluna de Desenho Industrial. Segundo ele, a pesquisa e as propostas apresentadas pelos alunos no final do curso são um detalhamento do que o profissional formado vai encontrar no dia-a-dia. ‘‘O trabalho escolar é uma vivência do trabalho profissional cotidiano. Ao definir seu tema, o aluno tem quase um ano de pesquisa pela frente. Ele discute detalhadamente cada etapa de uma tarefa profissional. Quando entra no mercado de trabalho, o tempo não é tão extenso assim. O dia-a-dia é bem mais ágil. E essa experiência durante a formação é fundamental no cotidiano da profissão futura.’’
O secretário municipal de Cultura, Alcides Carvalho, que compôs a banca de avaliação na apresentação do trabalho de Carolina Pagani, disse a ela que sua proposta preenche uma lacuna na área cultural. ‘‘Londrina, que se preocupa tanto com sua imagem, é carente de cartões-postais que retratem a vida de maneira mais jovem e descontraída.’’ O secretário propôs a ela que se informe sobre a Lei de Incentivo à Cultura, para receber patrocínio de empresários na produção comercial dos cartões.
Carolina garante que a intenção do trabalho não foi o de invalidar os cartões-postais tradicionais. ‘‘Só quero mostrar que existe um outro jeito de ver a Cidade. Não necessariamente as imagens têm que ser turísticas e panorâmicas. Londrina não tem apenas uma cara.’’

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