Cartilha retrata fundação de Londrina
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quinta-feira, 29 de maio de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
''Minha mãe fazia óleo de mamona e colocava dentro de uma vasilha com água e uma vela dentro, enquanto tivesse óleo a vela não apagava. Dava para queimar três noites e foi com esse óleo de mamona que substituimos o querosene.''
''Somente quando a funerária chegava com a charrete é que se colocava o defunto no caixão, que era de acordo com a idade da pessoa. Velho, o caixão era preto ou roxo; criança se fosse menino, o caixão era azul; se fosse menina era rosa; moças usavam caixão branco.''
''Tinha um delegado que quando aparecia marginal ele pegava o cara, dava uma dose de purgante e o levava até o Rio Tibagi e mandava pular.''
As histórias citadas acima são trechos dos depoimentos de Marximinia Salvador da Silva, 73 anos, Maria Cazarin, 75, e Zoilo Correa Lemos, 70, que compõem a cartilha ''Tempo de lembrar, tempo de aprender: memórias da cidade'', lançada na manhã de ontem pelas secretarias da Educação e do Idoso de Londrina durante confraternização na Escola Municipal Mábio Gonçalves Palhano (Zona Sul).
O material é resultado de um projeto realizado pelas secretarias durante todo o ano passado, o qual reuniu 500 alunos da 3 série do ensino fundamental das escolas municipais Pedro Vergara Correa, Anita Garibaldi, Hikoma Udihara, Atanázio Leonel, Mábio Gonçalves Palhano e Leônidas Sobrinho Porto e 40 idosos que participam de programas sociais do município.
A cartilha conta como era o modo de vida e as relações sociais no período de fundação da cidade sob a visão de quem viveu a época, complementando as descrições dos livros de história tradicionais. ''São pioneiros não oficiais, idosos pobres dos bairros, que contaram sua própria história para as crianças'', destacou a assessora de História da Secretaria de Educação, Eva Maria de Andrade Okawati, que transcreveu os depoimentos em parceria com a gerente de Ações de Apoio Sócio-Familiar da Secretaria do Idoso, Liz Clara Ribeiro de Campos.
Para Liz, as oficinas realizadas com os alunos resgataram a auto-estima dos idosos, que além de contar histórias sobre Londrina, ensinaram as crianças a confeccionar brinquedos antigos, como petecas e bonecas de pano. ''As crianças passaram a respeitar os idosos e reconhecê-los como protagonistas da história e referência de conhecimento. É uma nova perspectiva de trabalho em relação à valorização e potencialização do idoso londrinense'', comentou.
Alunos do colégio Mábio Palhano, Eduardo Pucci Nobor, 10, Vinícius André da Silva Moreira, 9, e Isabela Maria Betoni Dias, 9, aproveitaram as oficinas para aprender a montar petecas. E adoraram. ''Eles contaram que na época deles era difícil ir à escola porque moravam longe'', recordou Eduardo. Com a experiência, Isabela passou a tratar os avós com mais carinho. ''Ouvir histórias é uma forma mais legal de aprender'', opinou Vinícius.
Ao todo, foram confeccionadas três mil cartilhas, que serão distribuídas em todas as escolas municipais de Londrina. O material será usado como complemento para as aulas de História das 3 séries. Conforme a secretária de Educação de Londrina, Carmen Sposti, o projeto continuará este ano, com oficinas e palestras em todas as escolas dos distritos e patrimônios rurais do município. Para a secretária do Idoso, Cristina Coelho, a troca de experiência é importante para as crianças. ''Se os idosos não contarem a história, ela morre.''


