Em breve, a população de Londrina vai receber uma cartilha com uma lição não muito convencional: as informações serão sobre os mitos e cuidados que todos devem ter ao lidar com morcegos. A cartilha é fruto de um seminário organizado pelo 17º Conselho Regional de Saúde de Londrina, realizado semana passada, e que abordou o manejo e controle de morcegos, reunindo pesquisadores de Londrina, Curitiba e Brasília.
Segundo a médica veterinária Salma Buriham Delalibera, do Conselho Regional, o objetivo do encontro foi informar técnicos da Saúde, Vigilância Sanitária e Corpo de Bombeiros, entre outros, sobre como orientar da melhor forma possível a população sobre a presença do morcego na cidade, que é cada vez mais constante.
O encontro discutiu a importância da função ecológica dos morcegos, as espécies que vivem na área urbana, manejo e controle, a raiva em herbíveros (morcegos) e a raiva em animais domésticos e humanos. ‘‘A gente está recebendo uma série de reclamações sobre a presença de morcegos e, com isso, culminou também a descoberta de um caso de raiva na área urbana’’.
Entre as orientações que constarão no material informativo a ser divulgado, irá constar uma orientação importante: ‘‘Não devemos nunca exterminar o morcego porque ele tem um papel importante no equilíbrio ecológico’’, ensina a médica.
Entre os mitos sobre o animal apontados pelos pesquisadores está o de que todos os morcegos se alimentam de sangue, inclusive humano. Na verdade, dentre as mais de 900 espécies catalogadas deste animal mamífero, apenas três são hematófagas. As outras estão divididas em insetívoras (comem insetos), frugíveras (frutas) e políneras (pólen de plantas). ‘‘O cuidado que as pessoas devem ter é quando o morcego apresenta um comportamento estranho’’, explica o professor Nélio Roberto Reis, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que estuda o animal desde 1976. ‘‘Quando o morcego estiver caído no chão, por exemplo. Mas qualquer animal de sangue quente pode transmitir a raiva, não só os morcegos’’, observa.
Nélio Reis já identificou 32 espécies de morcegos em Londrina, entre hematófagos, frugíveros e polímeros, e acredita que a presença do animal na Cidade está diretamente ligada ao desmatamento acelerado que ocorreu nas zonas rurais.
Para a pesquisadora Angélika Bredt, da Secretaria de Saúde de Brasília, a presença de morcegos nas cidades não é um fenômeno que atinge somente Londrina. ‘‘Hoje em dia em qualquer cidade do mundo acontece isso.’’. Segundo ela, a questão da adaptabilidade não está ligada apenas na busca pelos alimentos. ‘‘Na natureza eles vivem em fendas de rocha. Os edifícios são os similares encontrados pelos morcegos nas cidades’’.
Apesar da aparição dos morcegos ser um fenômeno observado em vários lugares, Angélika Bredt diz que dificilmente as cidades se preocupam com o problema, como no caso de Londrina. ‘‘Isso é pouco estudado até nos Estados Unidos’’, lamenta, acrescentando que é importante saber que tipo de morcegos estão habitando os centros urbanos e o porquê desse processo.
A pesquisadora observa uma curiosidade sobre o morcego hematófago, que se alimenta de sangue. Ele é encontrado somente na América Latina, entre o sul do México e o norte da Argentina, atacando principalmente rebanhos bovinos. Mas a fama de ‘‘vampiro’’, animal agourento, que costuma chupar o sangue de suas vítimas até a última gota, é mundial.
‘‘Isso surgiu há mais de um século, a partir da relação entre a lenda do Conde Vlad e histórias de colonizadores da América do Sul’’, ela explica. Foi quando o escritor Bram Stocker criou sua obra máxima e colocou definitivamente o morcego como um grande inimigo da espécie humana. Angélika lamenta: ‘‘Pura injustiça’’.

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