Inverno de 1988, semana de recepção dos calouros da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Milhares de estudantes desavisados perdidos pelo campus em busca de tinta na cara, farinha no cabelo e batom vermelho para marcar, em letras garrafais, a palavra que os descreveria durante todo aquele ano: bixo.
Mal sabiam os desavisados que uma dupla de veteranos de Arquitetura havia preparado algo a mais para receber os calouros do Centro de Tecnologia e Urbanismo. Um manual com informações da universidade, do curso e dicas culturais e de sobrevivência no novo mundo do campus universitário.
''Tão importante quanto o casamento, o nascimento de um filho ou a morte, o trote é um ritual de passagem desejado por todo e qualquer jovem que se mata de estudar no cursinho e consegue ingressar na universidade pública. Eles querem e pedem comemoração'', comenta o arquiteto Christian Steagall-Condé, um dos criadores do primeiro manual do calouro da UEL.
Como hoje, há 20 anos a reitoria da UEL não via com bons olhos o tal ritual de passagem, e com o intuito de tornar o trote mais solidário, Condé e o colega Paulo Sérgio Tio resolveram criar a cartilha, que trazia um preservativo de brinde. A primeira edição foi feita à mão, em papel vegetal, e copiada em folhas de sulfite dobradas ao meio. ''Fomos mal recepcionados e nos vingamos recebendo os calouros como reis'', brinca Condé.
A idéia de produzir um informativo para os bichos surgiu depois que a dupla se perdeu em uma de suas andanças pelo campus. ''Decidimos mapear o campus pelo ponto de vista do usuário'', diz o arquiteto, que usou os conceitos das aulas de planejamento para elaborar o primeiro mapa temático da universidade.
Com o esqueleto do manual em mãos, os estudantes procuraram a assessoria de relações universitárias da UEL, que os ajudou a colocar o projeto em prática. Em 1988 foram impressas 100 cópias, entregues aos calouros da Arquitetura. Para Condé, por meio do manual, a UEL percebeu que estudantes fazem sexo. ''Teve um pai que achou um absurdo distribuir camisinha na universidade. Já outra mãe fez questão de nos conhecer para agradecer pelo manual'', recorda.
Segundo o arquiteto, a primeira edição do manual foi paga pelos próprios veteranos. Já em 1989 eles conseguiram um patrocínio discreto e imprimiram 2.250 cópias entregues não só para o pessoal da Arquitetura, mas em todo o campus. ''Com a terceira edição ganhamos dinheiro suficiente para mobiliar nossa república'', confessa Condé.
Ele não esconde o caráter comercial da publicação. ''Sempre tivemos o objetivo de ganhar dinheiro com o manual, tanto que ele era distribuído gratuitamente só na semana de recepção. Depois deixávamos cópias nas cantinas e vendíamos a um preço equivalente a R$ 5 na moeda atual.''

mockup