Cartilha aborda álcool e DST entre caingangues
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sexta-feira, 18 de abril de 2003
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Como ''estratégia de guerra'', o branco utilizou, e incentivou, o alcoolismo entre os índios, usando a bebida como um mecanismo facilitador para a exploração das terras indígenas. Mas o que era um artifício de dominação virou um problema para as reservas e o consumo do álcool é, hoje, uma perigosa porta de entrada para outros males. Isso é o que demonstra a cartilha ''Kaingang e Guarani Narrativas sobre o uso de bebidas alcoólicas e doenças sexualmente transmissíveis'', lançada durante esta semana em Londrina em alusão ao ''Dia do Índio'', comemorado hoje.
O livro foi o resultado de uma série de oficinas de prevenção do alcoolismo desenvolvidas junto à populações caingangue da Bacia do Rio Tibagi, como conta a pesquisadora em antropologia médica, Marlene de Oliveira. Ela é coordenadora do Programa Kaingang da Secretaria Municipal de Assistência Social e uma das organizadoras da obra. A principal preocupação da cartilha, como destaca Marlene, foi retratar a realidade falada e ilustrada pelo próprio índio.
A grande maioria dos textos e todas as figuras foram feitos pelos índios e destacam aspectos ligados à sua cultura e aos seus saberes tradicionais e a visão do indígena sobre como tudo isso foi usurpado pelo homem branco. ''Nosso objetivo é trabalhar, sobretudo, com as crianças dando enfoque na prevenção do alcoolismo'', reforça a pesquisadora.
Marlene explica que o álcool chegou até as aldeias levado pelas mãos gananciosas dos desbravadores de terras. Num dos relatos da cartilha, um índio conta que para entrar nessas regiões era preciso derrubar a resistência dos caingangue, ''que sempre foram de guerra''. Para isso, o homem branco construiu alambiques na região norte, às margens do Tibagi, subsidiados pela União. O resultado foi desastroso para esses povos indígenas. ''E a gente sabe bem certo isso, o que aconteceu por causa desses alambique, quanta briga entre os próprios índios, tudo por causa da cachaça, e quanta morte.''
Instalado no seio das aldeias, o alcoolismo acabou levando a outros problemas e doenças tão devastadoras quanto o próprio vício. ''O álcool, na maioria das comunidades, é um agravo importante em relação a outras patologias, como diabetes, hipertensão, depressão, entre outras'', destaca Marlene.
De acordo com a pesquisadora, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 10% da população mundial têm problemas com álcool. Mas ela alerta que entre os índios, esse percentual tende a ser maior por uma série de motivos, tais como: a falta de expectativa de futuro; o estereótipo negativo de que todo índio é dado aos vícios e não ao trabalho; e até mesmo pelo fator cultural, já que o índio utilizava bebidas fermentadas em rituais e acabou por substituí-las pelos destilados.
Segundo Marlene, os índios começam a beber com idades que variam entre 10 e 12 anos. Por isso, esclarece, ''reduzir danos em relação à bebida (entre os índios) é um longo processo, que demora cinco, dez anos''. O consumo de bebidas alcoólicas, segundo a pesquisadora, acaba se constituindo numa preocupação essencial em relação às doenças sexualmente transmissíveis DSTs pois é ''o principal fator de vulnerabilidade frente a essas doenças''. ''O índio ainda acredita que a Aids é uma invenção do branco. Esse é um problema sério que precisa ser enfrentado e as políticas públicas precisam criar estatégias para isso'', finaliza.


