Carteira está tão difícil quanto emprego
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sábado, 21 de março de 1998
Guilherme Vieira 
Albari RosaOsso duroFila de cerca de 200 pessoas se forma na porta da Delegacia Regional do Trabalho todos os dias úteisNa manhã da quinta-feira passada, o vigilante Carlos do Valle tentava, há 47 dias, fazer a Carteira de Trabalho para o filho Fagner. A luta começou no dia 2 de fevereiro, quando ele chegou às 7 horas na Delegacia Regional do Ministério do Trabalho (DRT) em Curitiba. Lá, Valle constatou a existência de uma fila de mais de 50 metros de extensão, formada por cerca de 200 pessoas aguardando senhas para atendimento. Enfrentou a fila, mas não conseguiu entrar porque a DRT distribui apenas 120 fichas para fazer a primeira via do documento. O vigilante não desistiu e resolveu se virar. Pouco tempo depois, conseguiu descobrir um rapaz que vendia senhas a R$ 20,00. Nesse momento achei que meus problemas tinham acabado e que no dia seguinte iria aproveitar minha folga para levar o garoto para se inscrever em algumas empresas, lembra.
Valle comprou a senha de número 59 e aguardou ser atendido. Ao ser chamado, mais uma surpresa desagradável: o atendimento ao público é feito somente pela manhã e a tarde é reservada para confecção das carteiras. Carlos do Valle recebeu um protocolo que definia a data de entrega do documento para o dia 6 de março. Mais de um mês de espera. Fiquei muito irritado, pois pensei que não iria poder fichar o garoto nas empresas, já que a maioria só aceita inscrever quem tem todos os documentos, diz.
Desde então ele já retornou outras duas vezes à DRT, sem sucesso. Na quinta-feira, ao tentar retirar a carteira, já estava perdendo a paciência. Nessa crise de emprego, meu filho em idade de trabalhar não pode entrar no mercado porque a DRT não funciona, desabafa.
Kraw PenasValle: Empresas só aceitam inscrever quem tem todos os documentos
O delegado regional da DRT, Tércio Albuquerque, diz estar ciente de que a delegacia atingiu a capacidade máxima de trabalho. Na avaliação dele, entre 5% a 7% das pessoas que procuram o órgão não conseguem senha para atendimento. Albuquerque explica que essa falha está sendo causada pela troca do modelo da Carteira de Trabalho. Essa mudança aconteceu para acabar com falsificações que aconteciam para fraudar o seguro desemprego e o INSS. O Paraná foi o Estado escolhido para servir de testes para o projeto-piloto desenvolvido pelo Ministério do Trabalho para a nova carteira, que depois será estendida a todo o Brasil, conta.
Além de Curitiba, estão passando por esse teste as cidades de Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, São José dos Pinhais, Colombo, Fazenda Rio Grande e Piraquara, as quatro últimas na Região Metropolitana da capital. Albuquerque reconhece que os trabalhadores dessas cidades são obrigados a enfrentar fila a partir das 3 horas da madrugada, e a demora de 20 a 30 dias para receber o documento.
Mesmo assim, o delegado do Trabalho acredita que esse sofrimento tem data para terminar: Estamos com uma licitação em andamento para compra de equipamentos que deve fazer com que, em seis meses, a carteira seja entregue em até 24 horas, anuncia.


