Que os astros me perdoem, mas será que é possível saber o nosso futuro nas previsões de uma cartomante de classificados ou com os tarólogos que falam nas linhas 0900 da televisão? Afinal, fica díficil compreender que nas cartas gastas de um baralho ou na fala padronizada da vidente estaria a resposta do que virá. Mas (que pesem as dúvidas dos céticos) pela quantidade de anúncios que existem em alguns jornais estaduais, as conjunções de Mercúrio e Júpiter devem estar funcionando, pois a cada dia cresce o número de novos videntes dispostos a revelar o que é oculto a nós, simples mortais.
Nos jornais, não é díficil encontrar essas pessoas nas seções de profissionais. Todo esse clã de profetisas promete resolver os mais diversos problemas, com rezas e até por meio de operações espirituais. Entre as graças a serem atendidas, existem aquelas que competem inclusive com o Viagra, prometendo a cura da impotência sexual.
A infalibilidade é garantida porque os espíritos (esses que só os escolhidos vêem) murmuram em seus ouvidos, ajudando sempre. A Folha foi atrás delas, afinal em época de crise financeira mundial, quem não precisa da ajuda de todos os santos?
As duas cartomantes consultadas pelo jornal - Elizabeth e Meire de Oxalá - deram também a garantia do acerto. Graças a elas foi possível descobrir dificuldades no campo amoroso, nos relacionamentos, no trabalho e nas finanças. Mas elas garantem que tudo isso é de fácil solução, já que suas rezas podem colocar no caminho a sorte perdida de um destino sempre feliz.
As consultas com as duas especialistas em astrologia, tarô e búzios foram feitas no mesmo dia. Com a baiana Meire de Oxalá, pela manhã, e com sua colega, Elizabeth, à tarde. Apesar do curto espaço de tempo, 4h30 entre as duas previsões, os espíritos que moveram os búzios apresentaram registros diferentes para a mesma pessoa. Talvez não tenha sido um erro, mas sim a influência da rotação da Terra, que deve ter afetado a queda das conchas de moluscos, os búzios.
Cada uma das esotéricas tem um modo diferente de operar. Meire vestiu seu guarda-pó, levando os clientes a uma sala reservada para consulta. Elizabeth recebe os fregueses na sala de casa, mas sempre com seu celular em punho, talvez porque seja essa a linha com os espíritos (bem parecido com Walter Mercado).
O que separa uma leitura da outra são pequenos detalhes. Elizabeth usa uma bateia, Meire um cesto de vime, onde ficam as pedras e caem os búzios. Um terço envolve o cesto, já na mão fica a cruz, que serve para ler os búzios na bateia. As duas guardam alguma santa. Meire, a santa negra, e Elizabeth é protegida por Nossa Senhora de Fátima.
Dentro deste cenário, acompanhadas ainda de velas acesas, elas perguntam o máximo sobre a pessoa para compor um perfil. A partir daí, todas as respostas seguem a obviedade, com dificuldades superáveis em prazo de 60 dias. O maior entrave visto por elas é a inveja (ou olho-gordo), empecilho indispensável para impedir o crescimento de seus clientes.Se nos classificados estão diversas opções de empregos e negócios, em alguns deles corre-se o risco de encontrar oportunidades de resultados duvidosos. Em dois jornais da cidade estão, em seções próximas, empregos de envelopador e serviços de cartomantes, talvez propositalmente. Os dois casos exploram a boa fé dos incautos, que em momentos de desespero se agarram a qualquer ponta esperança.

Israel Reinstein

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