Cartão-transporte gera mercado paralelo
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quinta-feira, 12 de março de 2009
Diego Ribeiro<BR> Equipe da Folha 
Quem acreditava que as vendas de vale-transporte acabariam, em 2002, com a implantação do cartão-transporte, em Curitiba e região, se enganou. A reportagem da FOLHA foi até o Terminal Guadalupe, no centro da Capital, na tarde de ontem, onde flagrou uma nova modalidade de comércio com o uso de cartões de transporte. Um grupo de cinco pessoas, três homens e duas mulheres, abordam e negociam cartões para revender os créditos com valores abaixo da passagem de ônibus.
Em 2007 e 2008, de acordo com um dos coordenadores da fiscalização da Urbanização de Curitiba (Urbs), Edson Berleze, o órgão já bloqueou 1.101 cartões e anulou 96.421 créditos ou passagens de pessoas que entregaram seus cartões-transporte para intermediários revenderem.
Ao chegar no Terminal Guadalupe, a reportagem da FOLHA se passou por alguém que teria créditos sobrando no cartão e que gostaria de revendê-los. O grupo de negociadores de créditos fica sempre muito junto, próximo de longas filas, em que abordam os usuários dos ônibus.
De acordo com o vendedor de créditos, chamado apenas de Luis, o cartão-transporte teria que ficar com ele durante um tempo estipulado pelo grupo e teria que ser usado livremente durante vários dias. "Pago R$ 1 por passagem vendida", explicou ele. A poucos metros dali, um fiscal da Urbs caminhava de um lado para o outro sem sequer olhar para o comércio que, segundo Luis, funciona todo dia.
Se o grupo ficasse com um cartão com 500 passagens em apenas um dia que, custam R$ 2,20, e vendesse por R$ 2,10 o crédito ao usuário, eles ficariam com R$ 550, e a pessoa que cedeu o cartão ficaria com R$ 500.
Outro tipo de fraude foi flagrada por guardas municipais, na manhã de ontem, no Terminal do Portão, onde ocorreu a prisão de um cobrador. O rapaz usava um cartão de usuário isento, que seria de sua mãe. A Urbs disse que ele ficava com o dinheiro dos usuários e, ao invés de liberar a passagem, o cobrador usava o cartão de isento.
Em quase um ano, ele usou 256 vezes esse cartão de isento, chegando a utilizá-lo até cinco vezes por dia, o que começou a aumentar a desconfiança da Urbs. O rapaz foi levado para o 8º Distrito Policial e a empresa Redentor terá que pagar uma multa de R$ 1.266, 25, conforme Berleze. Desde 2007 até ontem, 38 cobradores e motoristas foram flagrados aplicando o mesmo golpe.
A revenda de créditos e a fraude realizada pelos cobradores já são amplamente conhecida da Urbs. "Temos relatórios de auditoria que nos mostram o uso de cartões de isento, por exemplo", explicou.
Para Berleze, no caso da venda de créditos, a Urbs ainda precisa avançar na melhoria do sistema de bilhetagem eletrônica e fazer com que as informações com cartões bloqueados sejam repassadas às máquinas dentro dos ônibus em tempo real.
Quando a Urbs bloqueia um cartão, só no dia seguinte o sistema é atualizado e a catraca eletrônica trava o acesso daquele cartão. "O sistema será aprimorado e melhorará o controle. Paralelo a isso, as empresas devem orientar seus motoristas e cobradores sobre o assunto", avisou. O Sindicato das Empresas de Ônibus informou que não "compactua" com a atitude do cobrador que foi preso e o processo de fiscalização deve ser realizado pela Urbs. Sobre a venda de créditos, ele acredita que o mais prejudicado são os donos de empregadores que pagam o vale aos funcionários, que revendem para aumentar a renda. "Já solicitamos apoio da Polícia, mas não há nenhum enquadramento legal para isso". Denúncias podem ser feitas pelo telefone 156.


