Carta ao secretário
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quinta-feira, 19 de setembro de 2002
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Ela já tinha se decidido. Iria mandar uma carta para o secretário de Segurança Pública. Daquele jeito não dava mais para continuar. A bolsa estava abarrotada. Eram várias correspondências vindas do mesmo remetente: Diretran. Toda semana Ana Lúcia recebia uma multa de radar. Tinha dias que ficava horas elocubrando, tentando lembrar onde havia ganho mais uma. Cometido mais uma infração. A última de que se lembrava claramente era numa noite escura em que, por medo de assaltos, havia acelerado ferozmente o carro e ''clique'' uma luz forte acendeu bem no seu olho. Ela ficou até meio cega.
De tão assustada por andar nos arredores da cidade, Ana nem percebeu os avisos do radar. Era a noite em que uma amiga estava fazendo um bota-fora, em sua elegante casa num condomínio fechado. A gringa iria embora para seu país de origem e resolveu mostrar o palacete aos amigos conquistados, nesta terra descoberta por Pedro Álvarez Cabral. Na ansiedade de achar a casa em algum canto daquele bairro cheio de labirintos, Ana Lucia se apressou e ganhou aquela multa.
Mas depois da noite na casa da gringa, vieram outros comunicados de infrações cometidas em ruas que ela nem imaginava onde ficavam. Em momentos tentava procurar um culpado mas aí vinha a certeza de que o carro era só dela e mais ninguém o usava. Nunca. Então veio a decisão de acusar a segurança pública. Os culpados eram eles. As ruas desprotegidas. Uma moça não pode correr este risco. Tem que acelerar. Sempre. Custe o que custar. Mesmo que as multas sejam caras.


