Carroceiros temem por futuro da profissão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
Carroceiro há mais de 15 anos, Nildo dos Santos, de 42, já se diz conformado com o fim da atividade com a qual sempre sustentou a família. Isso ocorre porque o Código de Posturas do Município prevê que, no final de 2017, a circulação de carroças será proibida em Londrina. "Se acabar mesmo, a gente joga a caixa de ferramentas nas costas e sai trabalhar. Escolhi ser carroceiro porque não gosto de receber ordens, mas sou do pesado, sou honesto e o que vier a gente faz. Afinal tem que pagar as contas, não é?".
Se o que está previsto no parágrafo 3 do artigo 70 do Código de Posturas for mesmo colocado em prática daqui a pouco mais de dois anos, esse será o caminho de mais de 750 carroceiros. "De uma maneira ou outra teremos que nos adaptar", afirma o carroceiro.
O mesmo artigo do Código de Posturas que dá prazo para o fim da profissão também define que a Prefeitura de Londrina é responsável por encaminhar os carroceiros a cursos profissionalizantes, com o intuito de facilitar a inserção deles em uma nova ocupação. Até agora, no entanto, eles não foram procurados pelo poder público. "Até o momento não chegou nada para a gente, estamos no aguardo", afirma o presidente da Associação de Carroceiros de Londrina, Giuliano Custódio de Oliveira.
A Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) informou, por meio de nota, que há estudos para encaminhar os profissionais a atividades ligadas ao turismo. "É fato que há uma tendência para que a atividade com carroças e animais seja extinta, a exemplo de Curitiba. Neste sentido, a CMTU tem realizado alguns estudos e pesquisas de atividades voltadas ao turismo, as quais possam integrar esses profissionais. No entanto, essas pesquisas estão em fase inicial e qualquer solução (esta ou outras) serão multiprofissionais, ou melhor, feitas em conjunto com outras secretarias municipais, como a Sema (Ambiente) e a Agricultura, por exemplo. Tais planejamentos deverão ser apresentados em 2016", informa a companhia.
Mesmo assim, a Associação dos Carroceiros de Londrina mantém a posição contra a extinção da atividade e promete continuar lutando para manter viva a profissão na cidade. "Só estamos esperando chegar algum projeto à Câmara Municipal para fazermos uma manifestação. Já derrubamos uma vez há alguns anos e vamos derrubar novamente. Somos totalmente contrários, é nosso ganha-pão", sustenta o presidente da associação.
Em Curitiba, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) sancionou no final do mês passado lei que proíbe o uso de veículos de tração animal e exploração de animais para tal finalidade. A lei ainda passará por regulamentação, com prazo previsto de 90 dias. Em Londrina, por enquanto, não há nenhuma movimentação na Câmara de Vereadores para trazer o assunto à tona novamente. Na internet, no entanto, existem comunidades que pedem o fim da atividade, por conta do que consideram exploração dos animais.
"Acho que Londrina é uma coisa e Curitiba é outra. Londrina é uma cidade que tem a carroça em sua história. Se acabar mesmo, quero ver o que vai acontecer. Quem vai recolher pequenos entulhos que as pessoas têm que descartar?", defende Oliveira.
"A carroça sempre existiu. Quantas benfeitorias nós carroceiros já fizemos para a cidade? Se fosse para escolher, claro que não gostaria que acabasse, é o meu ganha-pão. Cuido bem dos três animais que tenho, mas ninguém vê isso aí. É complicado", emenda Nildo dos Santos.
João Alves de Oliveira também é contra o fim da profissão, mas diante da indefinição já planeja uma adaptação. Jardineiro de ofício, ele usa a carroça para o transporte dos restos de podas que se acumulam ao final de cada serviço. Sem a ferramenta de frete que utiliza há seis anos, o carroceiro deverá ter que se adaptar para não ter o trabalho prejudicado. "Quero comprar uma pampinha (caminhonete). Quando chegar essa lei, a gente tem que continuar, não posso parar de trabalhar", diz. Com a troca das quatro patas pelas quatro rodas, o preço do serviço deverá sofrer reajuste, o que faz o trabalhador temer uma diminuição da demanda. "Pode piorar um pouco", observa.


