Carroceiros resistem à passagem do tempo
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segunda-feira, 06 de outubro de 2003
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Alheios à passagem do tempo, três solitários carroceiros de Londrina instalados num pequeno quiosque em uma área pública no centro da cidade resistem à modernidade. Eles continuam exercendo a atividade que teve seus dias de glória há mais de quatro décadas, quando os caminhos eram ruins demais para serem desbravados por veículos motorizados. Do início dos anos 30 até a década de 60, boa parte do desenvolvimento da cidade se fez graças a força desses homens, que transportavam em carroças o café e as mercadorias que chegavam de trem. De lá para cá, muita coisa mudou.
Foi com esse trabalho, iniciado em 1964, que José Porfírio Costa, 80 anos, conseguiu criar os 11 filhos. Ele conta que chegava a transportar até 15 sacas de café na sua carroça de um depósito para outro e para os vagões de trem que escoavam a produção do norte paranaense. Era também por via férrea que chegavam os produtos que eram distribuídos em carroças puxadas por burros para os mercados da cidade. ''Nessa época, chegou a ter 60 carroceiros no ponto onde hoje fica o (Posto de Saúde) José Belinati'', lembra Costa. E ele conseguia bons lucros com essa atividade. ''O dinheiro valia mais porque não tinha a inflação.''
O tempo passou e a realidade se transformou. Com a quebradeira generalizada da cultura do café, a demanda diminuiu e sobraram apenas carregamentos de móveis e entulhos. Hoje, mesmo depois de conseguir a aposentadoria, o carroceiro diz que não pode deixar o trabalho porque o que recebe é muito pouco para conseguir viver. Os carretos, que giram entre R$ 15,00 e R$ 20,00, estão escassos, e a atividade já não atrai os seus filhos. ''Eles não sabem nem desabotoar uma fivela'', diz o carroceiro.
Já os irmãos Ângelo Roncaglia, 45 anos, e José Ivo Roncaglia, 56 anos, continuaram a profissão do pai, que atuou 23 anos como carroceiro. Com o falecimento do patriarca da família, Ângelo abandonou o posto de servente de pedreiro para assumir as rédeas deixadas pelo pai. ''Eu trabalhava como servente mas sempre pegava os animais dele.''
Isso foi há 15 anos e Ângelo já não pegou a ''bocada'' do café. Seus fregueses mais frequentes são os estudantes universitários, que preferem os carroceiros em razão do baixo valor do frete. Ele diz que não ganha muito com a atividade mas consegue o suficiente para não abandonar o que mais gosta de fazer. O estado de conservação da carroça e o cuidado dispensado ao cavalo baio, ''que só come capim fresco'', denunciam o amor que ele tem pela seu trabalho.
O irmão, José Ivo, assumiu sua primeira carroça há 12 anos e não se vê mais como empregado de ninguém. ''Meu pai não tinha nem um dia de estudo e criou seis filhos com este trabalho. E eu já estou acostumado com essa vida'', justifica. Ele só reclama da concorrência dos caçambeiros, que ganham clientes oferecendo facilidades no pagamento. ''Antes, a gente ganhava de R$ 50,00 a R$ 60,00 por dia. Hoje, se ganhar R$ 50,00 por semana já está muito bom'', lamenta.


