Carroça sobrevive ao caos do trânsito
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segunda-feira, 23 de junho de 1997
Osmani Costa Londrina 
Apesar de possuir quase meio milhão de habitantes, Londrina mantém algumas características de pequena cidade interiorana. Umas delas, que resistiu ao tempo e ao crescimento da terceira maior cidade do sul do Brasil, é a profissão de carroceiro. Diariamente, dezenas de carroças de aluguel dividem o raro espaço das estreitas ruas centrais com milhares de automóveis, caminhões, ônibus e motocicletas.
O mais tradicional ponto de aluguel de carroças no centro da Cidade fica no cruzamento da rua Minas Gerais com a avenida Leste-Oeste, ao lado da Supercreche (Cidade da Criança). O ponto funciona naquele local há cerca de cinco anos, desde que mudou-se da avenida Duque de Caxias para possibilitar a construção do um posto de saúde.
No ponto trabalham quatro carroceiros, das 8 às 18 horas, de segunda a sábado. Eles transportam entulhos, móveis, materiais de construção e pessoas. O mais experiente dos carroceiros é o aposentado José Porfírio da Costa, 70 anos de idade e no ramo desde 1964. Baiano, ele conta que criou 11 filhos trabalhando com suas carroças.
Não ganhamos muito dinheiro. Nossa clientela é formada por pessoas humildes, gente da classe operária que não pode pagar fretes altos e nem contratar uma caminhonete para fazer o serviço. Mas dá para ir vivendo e ajudando a criar os meus 21 netos, explica José Porfírio. O preço de cada corrida depende da distância da entrega e do peso do material a ser transportado.
A bandeirada custa R$ 10,00; o que significa que cada frete já começa com esse preço mínimo. Os carroceiros levam a encomenda em qualquer bairro de Londrina e também de Cambé e Ibiporã. Para as duas cidades vizinhas, o frete não sai por menos de R$ 30,00 e demora cerca de duas horas. Agora, no final do mês, o movimento diminui, porque as pessoas estão sem dinheiro, o salário já acabou faz tempo. Mas sempre aparece uma corridinha ou outra, se não está chovendo, garante José Porfírio.
Ele calcula que ganha, em média, R$ 500,00 mensais com os fretes, mas o trabalho pesado fica por conta da égua Boneca, que tem 4 anos de idade e desde pequena foi treinada para o trabalho em carroça no meio do caos do trânsito do centro de Londrina. Ela não refuga, não. É uma égua da melhor qualidade, bem educada. Ela está comigo deste novinha, é de estimação. Já me ofereceram até R$ 800,00 por ela, mas não vendo de jeito nenhum.
Na opinião de José Porfírio, as carroças de aluguel - com pneus de borracha e freio de mão - não atrapalham nem são prejudicadas pelo intenso trânsito de automóveis na área central da Cidade. Ninguém reclama da gente, não. Os motoristas nos tratam muito bem, nos respeitam, afirma José Porfírio. Nós também procuramos não atrapalhar ninguém. Respeitando a sinalização, vamos a qualquer lugar da Cidade sem qualquer problema. Garantimos a entrega da encomenda no local e horário combinados.
Os carroceiros não têm associação, não precisam de alvará e nem pagam qualquer taxa para exercer a profissão. No ano passado, a Autarquia do Meio Ambiente (AMA) tentou cadastrar esses profissionais autônomos, identificar com placa dos veículos e fiscalizar a atuação dos carroceiros, principalmente porque surgiram denúncias de que eram os responsáveis pelo transporte de entulhos para os fundos de vale da Cidade. O trabalho não prosperou e a AMA deixou de fazê-lo.


