Carro a álcool emite gás cancerígeno
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de maio de 1999
Silvana Leão 
Os carros a álcool que circulam no centro de Londrina estão emitindo um composto poluente, o acetaldeído, que altera a composição do ar, causando irritação nos olhos e vias respiratórias, além de ser potencialmente cancerígeno. Esta foi uma das conclusões do levantamento anual da qualidade do ar feito por alunos do curso de química da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O levantamento, por amostragem, faz parte de projeto iniciado em 1996, com financiamento do governo federal, através do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT).
Em anos anteriores, a coleta de amostras de ar foi feita na entrada do câmpus, à margem da rodovia PR-445, onde trafegam aproximadamente 21 mil veículos por dia. O último levantamento foi feito entre os dias 5 e 20 de abril, no módulo policial da Avenida Tiradentes.
A coordenadora do projeto, Maria Cristina Solsi, explicou que para fazer o levantamento são selecionados alguns indicadores de poluição do ar, como os compostos carbonílicos (formoldeído e acetaldeído). Estes compostos são liberados na atmosfera por várias fontes, mas principalmente pelos gases de exaustão de motores de veículos em geral.
Mario CesarAparelho para captar amostra de arOs primeiros estudos feitos através do projeto indicaram que na rodovia a concentração de formoldeído, resultante dos motores a diesel e gasolina, é maior. Já as amostras colhidas recentemente na Avenida Tiradentes, em local de tráfego intenso de veículos, apontaram concentração maior de acetaldeído, indicando a influência na qualidade do ar por veículos leves movidos a álcool ou por mistura de combustível (gasolina com álcool, por exemplo).
Este resultado é semelhante aos obtidos em algumas capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), que contam com levantamentos mais antigos. Isso mostra, de acordo com a professora, que é errônea a idéia de que o álcool é sempre menos poluente. Se isso fosse verdade, não encontraríamos concentrações de aldeído no ar, acrescenta Maria Cristina. Ela lembra que a presença do aldeído significa combustão incompleta do combustível, resultante de motores mal regulados.
De acordo com a Fundacentro, órgão ligado ao Ministério do Trabalho, o limite de concentração de compostos carbonílicos na atmosfera é de uma parte por bilhão (ppb) em ar limpo (como regiões não povoadas da zona rural) e de 10 ppb em áreas urbanas poluídas. Estudos realizados em cidades como o Rio de Janeiro já detectaram uma média de 12,7 ppb de acetaldeído em regiões de grande movimento de carros.
A situação ainda não está tão grave no centro de Londrina. No levantamento feito na Avenida Tiradentes, a maior concentração registrada foi de 3,1 ppb de acetaldeído. Em outubro de 1995, porém, estudos feitos pelo mesmo projeto detectaram 9,24 ppb de formoldeído na rodovia PR-445.
Segundo a professora, o objetivo do projeto desenvolvido na UEL não é monitorar a qualidade do ar na cidade, mas determinar tendências. Trata-se apenas de um indicativo. Para fazer um levantamento completo da qualidade do ar teríamos que analisar também outros compostos, disse, lembrando que as correntes de ar são muito dinâmicas, mudam constantemente. O equipamento utilizado pelos alunos para captação de amostras de ar foram doados pela Universidade de Dortmund, da Alemanha.
Segundo dados da 12ª Ciretran, a frota de veículos de passeio movidos a álcool em Londrina, incluindo os importados, era de 23.370 em abril, enquanto a frota de carros a gasolina era de 77.095. Dados do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis Minerais do Estado do Paraná indicam que atualmente são vendidos, em média, 9 milhões de litros de gasolina por mês em Londrina, contra 3 milhões de litros de álcool.


