Curitiba - Cerca de R$ 200,00 por mês. É com esse dinheiro que os catadores de papel Antonio e Rosane Machado sustentam a família de quatro filhos. O casal se enquandra na realidade da categoria em Curitiba. De acordo com o Ministério Público do Trabalho, esse valor é a média de ganho mensal dos cerca de 5 mil catadores da cidade. Isso porque, segundo eles, existe uma grande concorrência: os caminhões da coleta do Lixo que não é Lixo (programa da prefeitura que recolhe o lixo reciclável). Em protesto, vários carrinheiros fizeram ontem, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, uma passeata do centro da cidade até a sede da prefeitura.
A Procuradora do Trabalho, Margareth Mattos, que também é coordenadora do Fórum Lixo/Cidadania, diz que Curitiba deveria seguir o exemplo de Londrina na coleta do lixo reciclável. Isso, segundo ela, no mínimo duplicaria a renda dos catadores de papel, além de garantir melhores condições de trabalho. ''Em Londrina existem 27 Organizações Não-Governamentais (ONGs) que têm caminhões próprios que vão aos depósitos recolher o lixo coletado pelos catadores. A prefeitura deixa toda a coleta a cargo deles e a população já está acostumada com o sistema'', explicou. Esse modelo, segundo a procuradora, significa uma economia de R$ 300 mil no orçamento municipal de Londrina.
Em Curitiba, essa mudança significaria o fim do programa municipal Lixo que não é Lixo, que funciona desde 1989 e emprega hoje, de forma tercerizada, 270 pessoas. Margareth argumenta que esses funcionários poderiam ser reaproveitados na coleta do lixo orgânico e, dependendo do nível de organização, e se conseguirem financiamento para equipamentos de beneficar lixo, podem até se tornar catadores e ganhar mais. A Cavo, empresa tercerizada que faz a coleta de lixo em Curitiba, informou que os funcionários ganham, entre salário e benefícios, R$ 800 por mês.
''Fora lixo que não é lixo. Só carrinhos.'' Essa era a frase em um cartaz no carrinho do catador de papel Adauto Gonçalves dos Santos. ''O caminhão pega de nós. E a gente não consegue nem dribá-lo porque ele limpa muito rápido cada quarda e a pé não tem como ir antes'', conta. Para tentar burlar o caminhão, os carrinheiros vão aos locais no dia em que ele não passa. Dados do Instituto Lixo e Cidadania dão conta que enquanto os caminhões coletam 70 toneladas por dia, os carrinheiros recolhem 360 toneladas por dia. Porém, por falta de equipamentos adequados para o beneficiamento, o ''lixo'' dos catadores acaba valendo menos.

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