Acostumados a muito peso e longas andanças pelas ruas de Londrina, 300 catadores de papel e de outros materiais recicláveis farão hoje um trajeto diferente. No Dia Nacional dos Catadores de Papel, comemorado hoje, eles pretendem chamar a atenção dos moradores e comerciantes do Centro, fazendo uma carreata pelas principais vias.
O coração de Londrina é, pelo menos para os recicladores de papel, o mais inacessível dos locais. Segundo a presidente da Central de Pesagem e Vendas (Cepeve) de material reciclável, Verônica Cardoso Costa, o Centro representa os únicos 5% do município onde os catadores ligados a Organizações Não-governamentais (ONGs) não atuam. ''Estamos em todos os bairros. O único lugar onde ainda não tivemos adesão dos moradores à separação do lixo é a área mais central, que concentra a maioria dos prédios.''
Apesar da dificuldade, era justamente no Calçadão que o estudante C., 13 anos, conseguia uns bons trocados juntando papéis, latas e garrafas. Ele e dezenas de crianças passaram três meses recolhendo lixo na região até que, no ano passado, a prefeitura proibiu a prática por menores. ''Em três meninos, a gente juntava até R$ 50,00 por dia. Dava para comprar roupa, tênis, coisas que meus pais não poderiam comprar'', conta.
O estudante lembra indignado da proibição, ressaltando que já tinha idade suficiente para trabalhar com lixo. ''Quando eu fizer 18 anos, se não arrumar nenhum emprego, com certeza vou voltar para lá''. Cursando a 6 série, o garoto tem mais chances de seguir outro rumo do que o carregador de papel Reginaldo Reis, 21 anos. Diariamente, ele puxa o carrinho de coleta usado pelo grupo de reciclagem da Vila Marísia (área central).
''Tem um monte de coisas que eu preferia fazer, mas para quem estudou só até a 4 série não vai ter nada. Voltar a estudar também é difícil, porque quando paro de trabalhar, às 18 horas, tô muito cansado'', justifica. Ao final da manhã de ontem, após ter feito dez ''viagens'' com o carrinho de coleta, Reis já carregara cerca de três toneladas de lixo reciclável. Entre uma vez e outra, a pausa para relaxar braços e pernas não dura mais do que cinco minutos. ''Já não acho tão difícil. A gente acostuma'', diz.
As centenas de sacos de lixo levados por Reis são coletados, de casa em casa, por recicladores como Noêmia Gomes de Carvalho, 56 anos. ''Os moradores colaboram, entregam o material reciclável certinho. Trabalhar assim é bem mais leve do que quando eu catava papel e iscas de minhoca por aí.''
Para que os moradores do Centro também passem a colaborar com os recicladores, na carreata de hoje eles vão expor produtos artesanais feitos com lixo reciclável. Fruto do trabalho de 11 mulheres que, recentemente, começaram a transformar garrafas pet em enfeites, canudinhos em roupas e jornais em cestas decoradas. Também será apresentada uma música composta por recicladores, batizada de ''Lixo do Mundo''.
A concentração dos catadores será em frente ao Ginásio Moringão, às 14h30. De lá partirão carrinhos de coleta, kombis e caminhões de reciclagem, que vão percorrer a Avenida Higienopólis, as ruas Benjamin Constant e Minas Gerais, chegando à Concha Acústica, onde haverá um culto ecumênico.

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