Caron transforma a vida de assentado em poesia
Tudo vira poesia, cantoria e rima na cabeça do poeta Guido Ferdinando Caron, 72 anos. Trabalhador rural, ele já foi agricultor e proprietário de terras. Conta e canta que teve dinheiro a rodo nas sacas de arroz e de café, colhidas na época em que a agricultura ainda dava dinheiro. Perdeu tudo nas voltas que a vida dá. Mas nunca perdeu poesia e vontade de cantar.
Tudo está escrito, registrado em papéis variados: cadernos, atrás de papéis de anúncio, recortes encadernados com restos de cartolina. Tudo com o cuidado da lembrança dos fatos vividos, experiências suas e de outros.
Autodidata, ele aprendeu a ler e a escrever em 30 dias. Um senhor que morava perto de casa me ensinou o que sabia. Em pouco tempo eu já sabia mais do que ele e parei de ir nas aulas, conta. O aprendizado recebeu um reforço com quatro meses de Mobral, na década de 50. Mas a verdade é que Guido Caron não gosta de salas fechadas, gosta mesmo é de viver a poesia e escrever a vida. Não se preocupa com as letras erradas porque garante: passa o recado.
Não precisa ser professor para ser poeta, é preciso enxergar o mundo. Ver as pessoas por dentro e por fora, orienta. E de gente, diz, ele entende. Sou capaz de olhar para a pessoa e com seu nome apenas traçar sua vida, saber quem é. É difícil eu errar, afirma. Guido Caron arremata que é assim desde criança. Era tão pequeno quando comecei a pensar poesia e sonhar em escrever um livro que nem lembro mais quantos anos eu tinha, diz.
Nas estradas de suas poesias, estão a lama do Norte do Paraná; o caminho da agricultura, a tragédia das geadas e fragilização do sistema de pequenas propriedades. Mas seus versos não são sonhadores. As palavras, cheias de saudade, vêm plenas de cobranças e análises críticas sobre a política agrícola e econômica dos governos. Em uma de suas poesias mais recentes, a vergonha da aposentadoria, ele questiona a atuação do presidente Fernando Henrique Cardoso. Queria entregar o poema ao presidente durante uma visita de FHC à região, mas não conseguiu.
Nascido em Tabatinga (SP), em 1922, ele chegou a Londrina em 47, para trabalhar em uma propriedade na Água da Lindóia (zona oeste). A abundância e os encantos da região viraram poemas. Em Assis Chateaubriand, se tornou meeiro, arrendou terra, casou e adotou um filho. Na década de 70 ficou rico. Nunca parou de fazer poesias e falava sobre as dificuldades de ser agricultor e os humores da terra.
Hoje, Caran mora em uma casinha no assentamento João Turquino (zona oeste), vive de pensão ( R$ 120,00) e da venda de algumas poesias. Mas garante que não sente saudades da época em que tinha dinheiro. Foi um inferno. Muito problema para resolver. Comparado com a aquela época, apesar da falta de muita coisa, estou no paraíso, diz.
As poesias de Caran também falam de amor e romance. Não dos que viveu porque, como ele mesmo diz, seus grandes amores são a poesia e a vida. Nem deveria ter casado, comenta. O primeiro livro que escreveu é uma história de amor que demorou 11 anos para ficar pronta. Caran quis acompanhar a história. Ariane e Zé Maria - meia verdade, meio ficção - conta os encontros e desencontros de um casal seu conhecido.
O poeta de Deus no sertão e na cidade, é apenas mais um dos tantos livros escritos por Caran nos cadernos e papéis que recolhe e compra. Nenhum deles ainda publicado. Talvez, conta, este ano ele realize finalmente seu sonho de publicar um livro. Tesouros perdidos é na verdade uma brochura que reúne em uma produção de literatura de cordel as experiências poéticas de Caran. Sua esperança é, aproveitando o período político, que algum candidato financie a impressão do seu material.Marcos BorgesPercepçãoGuido Caron, em sua casa: Não precisa ser professor para ser poeta, é preciso enxergar o mundo Célia Baroni





