Carlito Strass e seus 912 meses de Heimtal
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Widson Schwartz<BR> Especial para a FOLHA 
Primogênito do casamento de Olga Schwertel e Carlos João Strass - o primeiro celebrado na área da colonização de Londrina -, Carlos, ou ''Carlito'', Strass só não é londrinense de papel passado porque nasceu em 27 de agosto de 1934, três meses e meio antes de se instalar o município, e foi registrado em Jatahy. Ele completa hoje 76 anos com a mente repleta de histórias, dos primórdios às iniciativas familiares mais recentes, que revitalizaram o matiz germânico do Heimtal com produtos coloniais, origem de uma rota gastronômica.
As ruas asfaltadas terminam em lavouras de trigo, a esta época, separando a sede do Heimtal e os conjuntos habitacionais, numa velocidade urbana que Carlito ainda acha surpreendente. ''Há 50 anos, se alguém falasse 'vocês estarão na cidade', a resposta seria 'você não está bem certo da cabeça''', comenta. ''Mas, olhe aí. Temos tudo, supermercado, lojas e bancos.''
''Estou completando 912 meses'', diz Carlito, que começou a estudar na Escola Alemã do Heimtal em 1942 e foi para o Colégio Köelle, internato em Ribeirão Claro (SP), em 1947, para concluir o primário e frequentar a segunda e a terceira séries ginasiais até 1949. ''Lá aprendi a ler e a escrever em alemão. Depois vim para cá'', recorda, já se referindo à terceira e quarta séries no Ginásio Londrinense. ''Íamos a cavalo ao Londrinense, aulas das 8 horas ao meio-dia, deixávamos os animais na cerâmica do Pietraroia, que era perto. Depois, parei de estudar.''
Frequentar a escola não o desobrigava de trabalhar, ''não tinha moleza'', fosse no armazém do pai ou entregando leite e outros produtos da propriedade familiar. Podia ir a bailes, às vezes caminhando cinco quilômetros, desde que não esquecesse do trabalho. ''Hoje, menor de idade não pode trabalhar'', compara. ''Para mim, já com 76 anos, o que vier é lucro. Mas tenho dó de nossas futuras gerações, muito devagar. Ficam mal-acostumadas.''
O casal Zélia Langa-Carlito Strass tem três filhos: Marlene (casada com Pedro Mangilli), Marli (esposa de Armando Mauri) e Marcos (casado com Elisabeth). E quatro netos.
Marcos, que é arquiteto, tornou-se o mestre das salsichas de Pflaumhloch no Heimtal, quando os Strass buscavam alternativas após o ciclo do café, com as propriedades redirecionadas à produção de hortifruti em parcerias com outras famílias. Essa fase iniciara-se na década de 1980 com a visão de um ''corpo técnico'' na própria família, representado pelos agrônomos Jorge e Marlene Strass, respectivamente irmão mais novo e filha de Carlito.
Jorge pediu à mãe, dona Olga (1912-2004), que tirasse do baú as antigas receitas de tortas e, antes de terminar a década, uma pequena casa de madeira azul com floreiras nas janelas, à margem da PR-445, foi o primeiro endereço das iguarias, permanecendo até que se construísse, ao lado, o prédio definitivo, no início da década de 1990.
E logo haveria as salsichas obedecendo a receita original do sul da Alemanha; o einsbein, lombo, costela e outros cortes suínos defumados que compõem os cardápios dos restaurantes Strassberg e do Toninho, estabelecimentos em família juntamente com o ''Porco no Tacho''.
Com a filha Marlene e o neto Bruno, Carlito viajou ao sul da Alemanha em 2004, percorrendo 3.500 quilômetros de carro, conheceram Pflaumhloch e Riesburg, a terra natal do pai, onde parentes lhe ofereceram a festa de aniversário de 70 anos. Na segunda viagem, em 2007, levou a esposa e encontraram a tia Cristina Strass, de 95 anos (irmã de Carlos, o pai), morando em Stuttgart e com disposição para subir 50 degraus até o apartamento no quarto andar. O avô paterno teve três casamentos e deixou muito descendentes.


