Ao meio-dia e meia, o microônibus escolar de dona Marlene Petrachim começa a receber os alunos, todos estudantes de 2º grau de escolas em Londrina. Os jovens seguem praticamente em silêncio. ''Na ida, tá todo mundo com sono e, na volta, com fome'', justifica um adolescente. Dentro do veículo, há quem vá ao colégio de van desde a segunda série primária, mas há também quem esteja usando o serviço há apenas alguns meses.
As amigas Cinthia Kobayashi e Renata Queiroz se conheceram dentro de outra van, e, hoje, continuam indo juntas para a escola, onde estudam o terceiro colegial. ''A gente conversa sobre a aula, sobre tudo'', garantem. Já Bruno Rocha Leonel prefere ficar ouvindo música. ''Fico mais na minha. Na verdade, eu preferiria que minha mãe me levasse e buscasse, mas ela diz que não pode'', confessa. Para ele, o pior é ter que acordar 40 minutos mais cedo, às seis horas, para poder pegar o transporte, o que não ocorreria se pudesse contar com a da carona da mãe.
Ainda se habituando à rotina das vans, Lara Vieira Maia diz preferir sentar-se na frente, justamente para poder conversar com a dona Marlene. ''Meus pais não podem me levar, e ir de ônibus ninguém merece'', conta a jovem, que leva cerca de 40 minutos para chegar em casa. ''Já fiz várias amizades''.
Enquanto vai deixando os adolescentes, ''tia'' Marlene também busca outras crianças para levar para a escola, e, aos poucos, o veículo volta a ficar cheio. Desta vez, de crianças. ''É melhor do que ir a pé'', define o pequeno Lucas, de 10 anos. Ele conta que já fez um monte de amigos dentro do veículo, e é na volta para casa que o pessoal faz mais bagunça.
As regras dentro do carro de dona Marlene são poucas, mas devem ser cumpridas à risca: animais não entram, motorista não pode dirigir de bermuda nem correr e é obrigatório o uso do cinto de segurança. Esta última regra, o pequeno Yan não só respeita, como também cobra dos coleguinhas. ''É para colocar o cinto!'', adverte para um colega. Da mesma forma, Marlene conta que, se alguém faz algo errado, as próprias crianças avisam. ''Esses dias um menino espirrou spray verde nos bancos, e as próprias crianças gritaram alertando. E eu passei a madrugada limpando'', conta. Para pôr ordem dentro do veículo, o segredo da motorista é ter muita paciência, compreensão e conversar ao invés de recorrer às broncas.
Quarenta minutos depois, Marlene chega à avenida do Café, em frente ao Cemitério São Pedro, onde outras cinco vans já a esperam. Lá, as crianças são distribuídas de acordo com a região onde estudam, e seguem cada uma o seu caminho. O trabalho de Marlene, que havia começado às 6h30 para buscar os primeiros alunos do turno da manhã, vai terminar só depois das 18 horas, até ela deixar a última criança em casa, com a recomendação de sempre: ''Vai com cuidado e fica com Deus''. (A.I.)

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