Carentes vão ter que deixar seus barracos
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de junho de 1998
Lucinéia Parra 
Três famílias carentes que ocuparam terrenos municipais no Conjunto Guaiapó, em Maringá, terão que deixar a área. A Procuradoria Jurídica da prefeitura vai tentar uma saída negociada com as famílias, mas se não houver entendimento, vai entrar com pedido de reintegração de posse na Justiça. O objetivo é impedir a formação de favela em Maringá.
Os barracos de madeira estão em um fundo de vale ao lado de uma reserva de mata nativa. As famílias cercaram a área para impedir a presença de animais e afirmam que só vão deixar o local se a prefeitura doar casas populares. Uma das famílias está no local há dois anos e as outras duas construíram os barracos há cerca de seis meses.
O aposentado Manoel Francisco dos Santos, 48 anos, construiu um barraco com dois cômodos, onde vive com um filho de 15 anos. Ele é aposentado por invalidez e diz que não consegue emprego. A aposentadoria de R$ 130,00, segundo Santos, não é suficiente para pagar aluguel e garantir a sobrevivência dele e do filho. Por isso, decidiu ocupar o terreno em Maringá, onde vive há seis meses.
A desempregada Clair Terezinha Gomes, 34 anos, seguiu os passos do amigo e também construiu uma casa com três cômodos, ao lado do barraco de Santos. Ela tem dois filhos e garante que não estava conseguindo pagar aluguel com o salário de empregada doméstica. Clair diz que morava em Sarandi e que ficou desempregada ano passado sendo obrigada a deixar a casa onde morava. Fiquei sabendo que tinha algumas pessoas morando aqui e também vim porque não tenho para onde ir, explica.
As três famílias não contam com energia elétrica e obtém água de poço artesiano. Clair afirma que não se importa com a falta de energia elétrica e que gosta do local porque é tranquilo e tem muito espaço para os filhos brincar.
A exemplo de Souza, Clair também cercou a área e aproveitou o terreno para plantar cana-de-açúcar e mandioca. Clair e Souza se ajudam no trabalho de recolher papel. Ela tem uma carroça e ele, um cavalo. Ele me empresta o cavalo e a gente sai juntos para catar papel na cidade, diz. Além do dinheiro proveniente da venda de papéis, Clair diz que consegue sobreviver graças a ajuda de comerciantes que doam sobras de verduras e legumes.
De acordo com o procurador jurídico da prefeitura, Octávio Salvadori, as famílias terão que deixar a área. Ele prometeu tentar uma solução negociada, mas se não houver acordo, entrará com um pedido de liminar de reintegração de posse. Para Salvadori, as famílias estão totalmente irregulares, já que a área que ocupam é de preservação permanente por ser fundo de vale. Além disso, segundo o procurador, a ocupação do terreno não faz sentido, já que a prefeitura dispõe de vários programas de habitação popular. Salvadori disse ainda que não vai permitir a formação de favela na cidade.


