Carecas por antecipação
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 1997
Adriana De Cunto 
Londrina
Josoé de CarvalhoAgora que eu passei, não vou mais estudar até o ano que vem. É só tirar 30 em cada bimestre
Danielle Yamamura, 17 anos, aprovada em DireitoConquistar vaga na faculdade, sem mesmo ter concluído o 2º grau. A proeza não é mérito de poucos: só em Londrina, dezenas de jovens que cursam o 3º ano do colegial já viraram calouros da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e agora se encontram na posição privilegiada de ter apenas que passar nas provas finais do colegial.
Com a criação do vestibular de inverno no ano passado, a UEL passou a dar uma oportunidade para aqueles estudantes do 3º ano mais preparados que os vestibulandos que já terminaram o colegial e agora circulam pelos cursinhos. Sem a necessidade de apresentar, na inscrição do vestibular, documento comprovando a conclusão do 3º ano, e com a realização das matrículas de 4 a 6 de fevereiro de 98, os treineiros, como são chamados, têm o mesmo direito que qualquer outro candidato.
O professor Reynaldo Ramon, da Comissão Permanente de Seleção (Copese), diz não saber que percentagem dos aprovados, nos dois últimos vestibulares, representa alunos do 3º ano colegial. Ele diz que na ficha de inscrição não há este tipo de informação. Mas a maioria das escolas de 2º grau de Londrina tem casos de alunos já calouros da UEL.
Não esperava ser aprovado em segundo lugar. Fiquei surpreso quando recebi o cartão de desempenho
Lucas de Azevedo, 16 anos, aprovado em Agronomia
O anúncio de sua aprovação no curso de Administração, mudou - literalmente - a vida de Paulo Roberto Belomo de Souza, 17 anos. Ele era estudante do 3º ano do Colégio São Paulo (centro) e, nos dias seguintes à divulgação dos aprovados, resolveu voltar para a cidade natal, Cambará (Norte Pioneiro), a fim de concluir os estudos em uma escola pública.
Para Paulo Roberto, a volta ao lar é a última chance que terá nos próximos anos de conviver mais que um mês - o período de férias - com a família. Além de ser uma chance também de economizar o dinheiro gasto com educação e com a permanência em uma república. A partir do ano que vem, eu volto a Londrina para fazer faculdade.
O rapaz conta que ainda não havia começado a estudar especificamente para as provas do vestibular e não tinha esperança de passar neste primeiro concurso. Eu achava que ia passar no final do ano, confessa o garoto, que até o ano passado só frequentou escolas públicas de Cambará.
Desde que ficou sabendo o resultado do vestibular - no último dia 15 -, Danielle Akitanno Yamamura, 17 anos, não pegou mais nos cadernos para estudar. Com a vaga garantida entre os calouros de Direito matutino da UEL, ela não quer mais saber de revisar as aulas do 3º ano no Colégio Universitário. Não vou mais estudar até o ano que vem, avisa. A garota está tranquila, em todas as matérias precisa de aproximadamente 60 pontos para concluir o ano. É só tirar 30 em cada bimestre, calcula.
Danielle diz que estudava em tardes alternadas para o vestibular. Tinha esperança de passar e não se sente constrangida em contar que ficou em 59º lugar - são apenas 60 vagas. O importante é que eu passei.
Dorico da SilvaCalouros precocesEvandro Zaquia e Fernando do Carmo, alunos de escola pública aprovados na UEL: esforço recompensadoA aprovação no curso de Odontologia da UEL também tirou um peso dos ombros de Cristiane Kikuchi Maikuma, 16 anos, aluna do 3º colegial do Colégio Delta. Ela conta que até o vestibular enfrentava uma alta dose de stress, devido à preocupação com o concurso e a problemas particulares - os pais moram em Campinas (SP) e ela veio para Londrina morar com os avós.
No começo do ano, a menina estudava seis horas por dia, além de frequentar o reforço que a escola oferecia aos sábados à tarde. Depois, passou para quatro horas de estudo. Agora, ela diz que está mais aliviada, principalmente porque garantiu a vaga em uma universidade gratuita.
Ao contrário de Paulo Roberto, Cristiane e Danielle, a aprovação no vestibular não parece ter trazido grandes transformações para Lucas Prado Lone e Paulo Rogério Scalassara, ambos com 17 anos e alunos do 3º colegial do Colégio Marista (área central). Apesar da tranquilidade de garantir vaga no curso de Engenharia Elétrica, os dois colegas pretendem continuar estudando no mesmo ritmo que os fez primeiros de turma. Não podemos parar de estudar porque vamos precisar da matéria para a faculdade, principalmente de Matemática e Física, comenta Paulo Rogério, que completou 17 anos no dia 30 de agosto.
Eu tinha esperança de passar no vestibular, mas não tinha confiança, diz, com modéstia. Paulo Rogério foi o primeiro colocado nos três últimos vestibulares simulados do Marista, enquanto Lucas ficou entre os 10 primeiros colocados.
Lucas e Paulo Rogério dizem que não há segredo em passar no primeiro vestibular e acreditam que a calma e a tranquilidade de poder prestar o concurso sem ter a obrigação de passar foi fundamental para a aprovação. Calma e confiança em Deus, resume Lucas. Os dois não costumam ocupar longas horas do dia estudando. Na opinião deles, prestar atenção às aulas é o mais importante. É fundamantal participar das aulas para não ter dúvidas na hora de fazer a tarefa, ensina Paulo Rogério.
Nem pensar em trocar os passeios de final de semana ou o grupo de música pelo estudo. Paulo Rogério não troca os jogos de bola de segunda e sexta-feira à noite e Lucas também não abre mão de tocar contrabaixo na missa de domingo que frequenta. A informática já virou mania entre os rapazes e, com a vaga em um dos cursos mais concorridos da UEL (32 candidatos por vaga), Lucas ganhou do pai a assinatura da Internet.
João Paulo Marana, 17 anos, também quer continuar estudando para o vestibular, apesar de já ter garantido uma vaga no curso de Agronomia da UEL. Ele está no 3º colegial do Delta e pretende forçar um pouco mais para tentar uma vaga em uma faculdade onde o curso de Agronomia - na área de pós-graduação - é mais conceituada, como Larvas (MG). Ele é de Cambé e conta que tem o hábito de estudar na semana das provas da escola, refazendo os exercícios.
Rodrigo Kasuhiro Suguimati, 17 anos, estudante do 3º colegial do Maxi e dono de uma das vagas do curso de Engenharia Elétrica da UEL, também acredita que o sucesso no vestibular deve-se mais ao aproveitamento das aulas do que no tempo gasto com a revisão das matérias. Seu método de estudo é simples: atenção na explicação dos professores e uma revisão dos cadernos na véspera das provas. Soma-se também a assiduidade: ele faltou à escola apenas uma vez nos últimos dois anos. No horário de folga, Rodrigo Suguimati costuma ler, ir ao shopping ou fazer musculação no colégio.
O segundo colocado no vestibular para Agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) tem apenas 16 anos e não terminou o 2º grau. Lucas Carvalho Basílio de Azevedo, aluno do 3º colegial do Canadá, esperava ser aprovado no concurso, mas não com tanto desempenho. Quando recebeu o cartão de aproveitamento, nesta semana, a segunda colocação foi uma surpresa.
Ele conta que no começo do ano preocupou-se mais com os estudos, dedicando-se algumas horas da tarde para revisar a matéria que viu nas aulas da manhã e de questões para o vestibular. Depois, passou a rever somente as matérias do dia-a-dia.
Lucas de Azevedo lembra que estudou em escolas públicas até a 8ª série, transferindo-se depois para uma escola particular. Na opinião dele, a mudança fez muita diferença para obter a segunda colocação entre os aprovados em Agronomia. O meu desempenho na escola melhorou muito e a gente tem mais incentivo para estudar.
Cristiane Minako Koga, 19 anos, acredita mais no esforço pessoal dos alunos do que no papel da escola. Cursando o 2º colegial no Maxi, ela foi a primeira colocada entre os candidatos da área de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM). O aluno faz a escola. Não adianta o colégio ser bom, excelente, se o aluno não cooperar.
A primeira colocação na UEM veio com sabor de revanche para a moça, que perdeu três anos de estudo porque mudou-se para o Japão com a família para trabalhar. Ela conta que, quando retornou no ano passado ao Brasil, foi difícil encontrar uma escola particular que a aceitasse, já que estava muito atrasada em relação aos outros jovens da sua idade. Do funcionário de um dos maiores colégios da Cidade ela recebeu uma resposta impiedosa. Ele disse que eu não teria capacidade para acompanhar os outros alunos, porque o método utilizado por eles era muito rigoroso. Eu me senti muito humilhada, revela.
A volta à escola foi complicada, lembra Cristiane. No ano passado, ela se dedicou em tempo integral aos estudos. No primeiro semestre, eram quatro horas de reforço em casa, depois de chegar da escola. Eu pegava livros da 7ª e 8ª série para recordar a base das matérias. Eu tinha esquecido tudo. No tempo que ficou no Japão, ela diz que só pensava nos colegas brasileiros que estavam cursando a faculdade.
Neste ano, o ritmo de estudo de Cristiane diminuiu. Eu presto atenção às aulas e, na véspera da prova, dou uma revisada. Em janeiro de 98, a garota vai prestar vestibular para Medicina na UEL. Mesmo com a primeira colocação no último concurso da UEM, ela não está confiante na aprovação: Depende muito do desempenho dos outros. Pode existir gente mais preparada do que eu.
Não foram apenas as escolas particulares que comemoraram aprovação de seus alunos secundaristas no vestibular de inverno da UEL. A conquista também está entre estudantes de escolas públicas, consideradas como mais fracas, quando comparada com as particulares. Evandro Constante Zaquia, 24 anos, e Fernando José do Carmo, 18 anos, fazem o colegial no Instituto Estadual de Educação de Londrina (IEEL) e também têm a vaga garantida para o ano que vem na universidade.
Evandro é calouro de Biblioteconomia e Fernando, de Ciências Contábeis. Os dois trabalham e dizem que se esforçaram bastante para ter um bom desempenho no vestibular. O primeiro é funcionário da Biblioteca Central da UEL e o segundo é monitor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul).
Eles não fizeram cursinho e conta que se dedicaram à preparação para o vestibular nos horários de folga, à tarde e nos finais de semana. Quando o professor de Matemática terminava a matéria curricular, ele passava questões de vestibular para a gente praticar, revela Fernando.
Evandro diz que tinha esperança de passar no vestibular, mas Fernando só começou a acreditar na aprovação depois de conferir os gabaritos e perceber que tinha ido bem nas provas. O calouro de Biblioteconomia: Acho que tudo depende do esforço de cada um. Se a pessoa quiser alguma coisa e se esforçar, ela consegue.


