Carecas já mataram em Curitiba
Carecas já mataram em Curitiba Arquivo FolhaLaly Siqueira, mãe do iluminador o Carlos Adilson Siqueira, com a foto do filho, assassinado por skinheads No dia 6 de fevereiro, em São Paulo, 18 jovens da gangue Carecas do ABC espancaram até a morte o adestrador de cães Edson Neris da Silva, 35 anos. Foram presos, em seguida, sob acusação de formação de quadrilha e de homicídio doloso. A morte do adestrador não foi um fato isolado. Ela faz parte de uma série de atentados, torturas, tentativas de assassinatos e homicídios praticados por grupos de extrema-direita, conhecidos como skinheads (cabeças raspadas) ou carecas, existentes em todo mundo. Em Curitiba, o grupo também já fez sua vítima fatal, há quatro anos, quando matou com um tiro na nuca o iluminador de teatro Carlos Adilson Siqueira, negro de 23 anos, em pleno Largo da Ordem, Centro da cidade. Apesar dos fatos e evidências, já que todos esses atentados têm como vítimas punks, homossexuais, negros ou judeus, o maior empecilho na luta contra os skinheads está na própria Justiça, que reluta em reconhecer os crimes praticados como racistas e preconceituosos. Foi o que aconteceu com o adestrador de cães, que foi morto porque era homossexual, mas os autores do crime não foram enquadrados em crime de discriminação. No caso do iluminador Carlinhos, como era conhecido, antes de disparar os tiros, os autores do crime chegaram a chamá-lo de negro sujo, o que é comprovado por testemunhas. Ainda assim, a polícia não admitiu crime racial. Assim, o menor G.A.C.W., que confessou ser autor dos disparos, acabou sendo detido seis meses por homicídio sem acusação de racismo. A verdade é que os próprios carecas negam que sejam racistas e se dizem apenas integralistas. Eles alegam, ainda, ter filosofia diferente dos white powers, estes sim racistas, segundo eles. A prática no Brasil, entretanto, mostra que os nordestinos são um dos alvos destes grupos, numa ação típica neonazista. Relatório da Skinhead Internacional, entidade que monitora as atividades de grupos extremistas em cerca de 40 países, atribui aos skinheads paulistas diversos ataques racistas, entre os quais a violação de um cemitério judeu e o linchamento de um jovem negro de 15 anos. No Brasil, calcula-se que existam cerca de mil skinheads. A maior concentração de skinheads neonazistas brasileiros está em São Paulo, mas há também grupamentos extremistas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em Curitiba, os skinheads têm cerca de 40 integrantes, que se denominam Carecas do Brasil, dizem ser nacionalistas, conservadores, mas não admitem seguir a filosofia nazista. O grupo, entretanto, é acusado de agressões, espancamentos e assassinatos de homossexuais, negros e punks. Em 1996, os carecas tentaram organizar um encontro estadual em Maringá, o que acabou não acontecendo devido às denúncias feitas por entidades da sociedade à polícia. Segundo membros do Movimento Anarquistas contra o Racismo (ACR), organização não-governamental criada em 1992, com representantes em várias cidades, ao contrário da maioria dos skinheads, em Curitiba o grupo é composto principalmente por jovens de classe média, que agem de forma violenta e ficam impunes. Apesar disso, são bastante confusos ideologicamente. Para Ivan de Souza, 31 anos, do ACR, entretanto, a falta de ideologia desses grupos não pode ser ignorada. Ele acredita que essas pessoas são manipulados por organizações de direita, como a Associação Integralista Brasileira (AIB), a editora gaúcha Revisão de Porto Alegre, a Tradição, Família e Propriedade (TFP), que usam esses jovens como massa de manobra para pregar a filosofia nazista, racista e contra os homossexuais.





