Cardíaco exige mais atenção de dentistas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Luka Morais 
Londrina
Os dentistas precisam ter conhecimento básico sobre doenças de coração e se preparar para tratar pacientes cardíacos com maior segurança. O recado foi transmitido ontem pelo diretor do serviço de Odontologia do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Ricardo Simões Neves.
A preocupação com os pacientes portadores de cardiopatia, segundo Simões Neves, surgiu a partir dos avanços na Medicina. Os recursos disponíveis permitiram um aumento da sobrevida dos doentes que, até tempos atrás, não chegavam a frequentar os consultórios odontológicos. Hoje essas pessoas estão circulando pelos consultórios.
A mudança no perfil do paciente obriga os profissionais da Odontologia a conhecerem melhor as pessoas que buscam tratamento nos consultórios. Em outras palavras: os dentistas devem dedicar um tempo maior fazendo a chamada anamnese (interrogatório do paciente), para coletar informações de forma mais criteriosa.
Os cuidados com cardiopatas são justificados por pesquisas que revelam elevada incidência de endocardite (infecção grave e traiçoeira da parte interna do coração) causada por ferimentos na boca. Segundo Simões Neves, 40% dos casos são provocados pela bactéria Estreptococus viridans, que faz parte da flora bucal, mas que pode entrar na circulação sanguínea, se houver algum tipo de sangramento na boca, e chegar até o coração.
Na pessoa que tem um pequeno defeito no coração como um sopro, qualquer foco bucal, como gengiva inflamada, pode representar riscos. Entrando na circulação sanguínea, a bactéria da boca vai se instalar na área pré-lesada.
Além de difícil diagnóstico e de exigir tratamento hospitalar por tempo prolongado, a endocardite diz Simões Neves, apresenta alto índice de mortalidade (cerca de 30%) e também de morbidade. Os doentes sofrem limitações e sequelas graves como insuficiência do coração.
A prevenção, também nesse caso, continua sendo o melhor remédio. Os dentistas devem orientar os portadores de cardiopatias a fazerem revisões dentárias trimestrais e cuidados especiais com a higienização da boca para evitar o aparecimento de focos. Também são indicados bochechos diários com soluções fluoretadas que previnem o surgimento de cáries.
No caso dos pacientes cardiopatas que já apresentam inflamações e ferimentos nas gengivas, a saída tem sido o uso de antibióticos antes de se iniciar procedimentos que causam sangramento como extração, canal ou raspagem de gengivas.
Ele também fez um apelo aos colegas para que evitem o uso de anestésicas com substâncias vasoconstritoras em pacientes cardiopatas. Esse tipo de anestésico, que provoca a diminuição do calibre dos vasos sanguíneos, diz Simões Neves, tem a preferência dos profissionais da área porque facilita o trabalho, já que reduz o sangramento e tem maior tempo de duração. Simões Neves participou da abertura do 1º Encontro de Integração Médico-Odontológico, que reuniu profissionais de Londrina e região no auditório da Associação Odontológica do Norte do Paraná (AONP). A promoção foi da AONP e Associação Médica de Londrina.


