Marcos Zanatta
De Maringá
O aposentado Aparecido Rubio de Araújo, 39 anos, de Maringá, doou o corpo para a Universidade Estadual de Maringá (UEM), com escritura pública registrada em cartório. Ele é católico, casado e pai de três filhos, dois deles menores, e disse que tomou a decisão depois de descobrir que tem um problema cardíaco irreversível, há três anos. ‘‘Sempre fui doador de órgãos, mas como minha doença deixou só as córneas e os rins bons para um transplante, decidi doar todo o corpo’’, explica. Araújo diz que o caso é inédito na região, e o primeiro onde o doador registra a intenção em cartório.
Trabalhando por mais de 10 anos como auxiliar de enfermagem, Araújo diz que conhece a realidade das pessoas que precisam de doação para um transplante. ‘‘Pretendia fazer a minha parte para beneficiar as pessoas doentes’’, disse. Há pouco mais de três anos, ele descobriu que sofre de ‘‘ponte miocárdia’’, uma doença cardiáca irreversível. ‘‘De agosto a dezembro do ano passado fui cinco vezes para a UTI, e só não morri porque tive socorro imediato’’, contou. Foi quando ele começou a apressar a doação. ‘‘Posso morrer a qualquer momento.’’
O primeiro passo foi conversar com os familiares. Ninguém foi contra. ‘‘Mesmo que alguém tentasse me impedir eu ia entrar na Justiça para garantir minha vontade.’’ Depois, Araújo procurou os responsáveis pelo setor de morfologia da UEM. ‘‘Eles aprovaram e até me orientaram a registrar a intenção em cartório para não ocorrer nenhum problema depois’’, disse. O cartório foi procurado e, na semana passada, registrou a escritura da doação de Araújo.
O professor Eduardo Rafael da Veiga Neto, chefe do Departamento de Ciências Morfofisiológicas da UEM, disse que a atitude do doador, de registrar em cartório, é inédita. ‘‘Conseguimos que um cartório de Maringá concordasse em fazer o registro sem custos’’, acrescentou. Veiga Neto ressalta que a doação vai suprir a necessidade de alguns cursos. ‘‘Pelo terceiro ano seguido vamos usar dois corpos ao invés de quatro, que seria normal para atender todos os cursos’’, explicou.
Hoje, lembra Veiga Neto, apenas os corpos considerados de indigentes e não reclamados vão para as escolas. O problema, segundo ele, é que o SUS paga às prefeituras pelo enterro de indigentes, o que dificulta o repasse de corpos às instituições. Outro problema ‘‘localizado’’ é que Maringá ganhou quatro faculdades nos últimos dois anos, que acabam disputando os poucos corpos que podem ser repassados como doação.Intenção foi registrada em cartório, fato considerado inédito na região; doador sempre quis ‘‘ajudar pessoas doentes’’
Marcos NegriniDOCUMENTOAparecido Araújo mostra a doação do corpo registrada em cartório: cinco vezes na UTI em 99

mockup