Caramori, o amanuense
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Wilhan Santin 
Durante muitos anos, as mãos de Carlos Caramori, 77 anos, estiveram ocupadas tratando os dentes de moradores de Apucarana (Norte). Hoje, elas se ocupam de fazer arte. Ele é um amanuense. Bom, vamos começar esta história do começo...
Mineiro da cidade de Conquista, Caramori chegou ao Paraná ainda menino, aos sete anos, com a família se estabelecendo primeiro em Londrina. Mais tarde, em 1944, mudariam para Apucarana, onde o pai do nosso personagem de hoje (também chamado Carlos) tocaria o bar da Estação Ferroviária.
Foi ainda em Londrina, em 1942, que o atual amanuense começou a se interessar pela Odontologia, quando teve de fazer um tratamento dentário. Tinha dois mil réis no bolso, presentes de um tio, o preço exato do tratamento mais anestesia. Sem anestesia era 500 réis mais barato. Como a situação financeira da família era difícil, - acontecia a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) - optou pela economia, enfrentando a dor. Acabou não utilizando o troco. Até hoje guarda a moeda de 500 réis que sobrou, como um talismã.
Com menos de 25% de audição, encarou os preconceitos da época, os insultos e até a falta de paciência dos professores, que cansavam de repetir muitas vezes a mesma coisa para o menino que não escutava direito. O incentivo da família o impulsionava para se esforçar nos estudos. Foi aprovado para a faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo. Abandonou o curso antes da metade para ir atrás de sua vocação. Em 1961 formou-se odontologista pela Faculdade do Triângulo Mineiro, voltando para Apucarana para clinicar.
Logo, inconformado com as muitas cáries de seus pacientes começou a frequentar gabinetes de políticos. Queria que a água da cidade recebesse doses de flúor. ''Eu não me conformava. Por conta do custo do tratamento, o pessoal extraía os dentes. Fui até Araraquara (SP), onde já fluoretavam a água. Em Apucarana, comecei a promover reuniões, mostrando os benefícios de introduzirmos o flúor... Havia certa resistência, pois era algo que só daria resultado a longo prazo. Até que convenci o pessoal e a fluoretação aconteceu. Hoje, o índice de cáries é muito menor'', comemora.
Com as modernidades, o dentista começou a ver diplomas de cursos superiores, cidadanias honorárias e afins sendo impressos de forma muito simples, sem capricho. Começou a exercitar seu dom para o desenho, herança do curso de Arquitetura. Viu que levava jeito e decidiu que seria um amanuense nas horas vagas. Para quem não sabe, amanuense é quem se dedica a escrever a mão. ''Também pode ser calígrafo, mas o termo mais correto é amanuense'', ensina.
Aos poucos, aprimorou a arte. Hoje, confecciona belos diplomas. Tudo feito à mão, com tintas inglesas e papel pergaminho da Alemanha. ''Nunca faço dois iguais. Cada um tem seu acabamento, com filigramas do período medieval'', diz. ''Um diploma é algo importante. Demoro de 15 a 20 dias para fazer cada um. Não pode haver nenhum borrão'', completa.
Os clientes de Caramori são pais que querem presentear os filhos que se formam e câmaras de vereadores. Mostrando as mãos firmes, o artista comenta que quer trabalhar cada vez mais, apesar da fila de encomendas sobre sua mesa. ''É o que gosto de fazer, assim sou feliz'', finaliza, ele próprio cidadão honorário de Apucarana. É claro que Caramori fez o seu próprio diploma.
Sugestões: [email protected] ou (43) 3374-2184


