Durante muitos anos, as mãos de Carlos Caramori, 77 anos, estiveram ocupadas tratando os dentes de moradores de Apucarana (Norte). Hoje, elas se ocupam de fazer arte. Ele é um amanuense. Bom, vamos começar esta história do começo...
Mineiro da cidade de Conquista, Caramori chegou ao Paraná ainda menino, aos sete anos, com a família se estabelecendo primeiro em Londrina. Mais tarde, em 1944, mudariam para Apucarana, onde o pai do nosso personagem de hoje (também chamado Carlos) tocaria o bar da Estação Ferroviária.
Foi ainda em Londrina, em 1942, que o atual amanuense começou a se interessar pela Odontologia, quando teve de fazer um tratamento dentário. Tinha dois mil réis no bolso, presentes de um tio, o preço exato do tratamento mais anestesia. Sem anestesia era 500 réis mais barato. Como a situação financeira da família era difícil, - acontecia a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) - optou pela economia, enfrentando a dor. Acabou não utilizando o troco. Até hoje guarda a moeda de 500 réis que sobrou, como um talismã.
Com menos de 25% de audição, encarou os preconceitos da época, os insultos e até a falta de paciência dos professores, que cansavam de repetir muitas vezes a mesma coisa para o menino que não escutava direito. O incentivo da família o impulsionava para se esforçar nos estudos. Foi aprovado para a faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo. Abandonou o curso antes da metade para ir atrás de sua vocação. Em 1961 formou-se odontologista pela Faculdade do Triângulo Mineiro, voltando para Apucarana para clinicar.
Logo, inconformado com as muitas cáries de seus pacientes começou a frequentar gabinetes de políticos. Queria que a água da cidade recebesse doses de flúor. ''Eu não me conformava. Por conta do custo do tratamento, o pessoal extraía os dentes. Fui até Araraquara (SP), onde já fluoretavam a água. Em Apucarana, comecei a promover reuniões, mostrando os benefícios de introduzirmos o flúor... Havia certa resistência, pois era algo que só daria resultado a longo prazo. Até que convenci o pessoal e a fluoretação aconteceu. Hoje, o índice de cáries é muito menor'', comemora.
Com as modernidades, o dentista começou a ver diplomas de cursos superiores, cidadanias honorárias e afins sendo impressos de forma muito simples, sem capricho. Começou a exercitar seu dom para o desenho, herança do curso de Arquitetura. Viu que levava jeito e decidiu que seria um amanuense nas horas vagas. Para quem não sabe, amanuense é quem se dedica a escrever a mão. ''Também pode ser calígrafo, mas o termo mais correto é amanuense'', ensina.
Aos poucos, aprimorou a arte. Hoje, confecciona belos diplomas. Tudo feito à mão, com tintas inglesas e papel pergaminho da Alemanha. ''Nunca faço dois iguais. Cada um tem seu acabamento, com filigramas do período medieval'', diz. ''Um diploma é algo importante. Demoro de 15 a 20 dias para fazer cada um. Não pode haver nenhum borrão'', completa.
Os clientes de Caramori são pais que querem presentear os filhos que se formam e câmaras de vereadores. Mostrando as mãos firmes, o artista comenta que quer trabalhar cada vez mais, apesar da fila de encomendas sobre sua mesa. ''É o que gosto de fazer, assim sou feliz'', finaliza, ele próprio cidadão honorário de Apucarana. É claro que Caramori fez o seu próprio diploma.

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