Londrina - Um dos principais "produtos" de exportação do Brasil hoje não entra na conta da balança comercial. No entanto, garante a presença da cultura nacional nos mais diversos cantos do planeta, dos Estados Unidos a Israel, da Austrália à Rússia. E é facilmente reconhecido, por suas músicas e movimentos típicos e pelo som do berimbau.
Expressão cultural genuinamente brasileira, a capoeira ganhou o mundo. E é claro que os naturais da terra onde ela nasceu são os mais requisitados para difundir a arte. Por isso, os mestres estão espalhados mundo afora. E cada vez mais capoeiristas tupiniquins seguem para terras estrangeiras para ensinar os gringos a jogar.
No início do ano que vem mais um praticante vai engrossar a fileira dos brasileiros que ensinam a arte fora do País. A viagem para os Estados Unidos foi conquistada com muito suor e ginga. Andro Henrique Cavallari Soares Campos, 23 anos de idade e 12 de capoeira, mais conhecido como Pé na Cova, foi o vencedor da categoria graduados no 1º Campeonato Mundial de Capoeira, realizado em Londrina de 11 a 16 de agosto.
O plano de Pé na Cova é participar da competição em Miami e passar seis meses ministrando workshops nos cinco centros da Fundação Internacional de Capoeira Maculelê em terras norte-americanas.
A disputa vencida por ele teve a participação de 360 atletas - 115 estrangeiros. A maior delegação gringa foi a dos Estados Unidos, com 48 capoeiristas, mas também vieram competidores do Canadá, Porto Rico, Colômbia, México, Áustria, Portugal e Inglaterra.
Na categoria que reúne os mais graduados, três londrinenses venceram. Seguindo Pé na Cova na classificação, ficaram Chocolate, ou Abraão de Deus Teixeira, 24, e Guerreiro, ou Rudsney Domingos, 22. Outro destaque foi a vitória dos irmãos Alan Cristian Souza da Silva, 11, o Espoleta, e Bruno Felipe Souza da Silva, 12, campeão e vice na categoria iniciantes, e Dandara Jenani da Silva, 14, entre as meninas.
A competição não foi a única atividade da programação do Campeonato Mundial de Capoeira. Diversos workshops e apresentações e até batizado, inclusive com a participação de mestres de outros estados, além de oficinas de Bumba Meu Boi e Coco e Ciranda, movimentaram a cidade. Uma das demonstrações mais concorridas entre os estrangeiros foi realizada no Jardim Franciscato (Zona Sul), bairro onde o Grupo Maculelê mantém há oito anos um projeto que envolve 200 crianças carentes.
Para o Mestre Fran, a iniciativa é uma ferramenta para garantir um futuro melhor para os pequenos capoeiristas. O próprio Chocolate é um exemplo vivo do resgate proporcionado pela capoeira. Hoje, com 12 anos de experiência, ele ensina a arte para os garotos e garotas do bairro. "Não sei o que estaria fazendo hoje se não fosse a capoeira. Muitas vezes ofereceram drogas para mim e eu nunca entrei nessa por ser um atleta e ter a orientação do mestre", destaca Chocolate.
Os horizontes foram abertos por capoeiristas que tentaram a sorte lá fora e convidaram outros profissionais a seguir seus passos. Mestre Fran, do Grupo Maculelê em Londrina, por exemplo, passou cinco anos em Atlanta. Nessa experiência internacional ele teve contato com praticantes de diversas partes do mundo. E o que mais chamou a atenção dele foi o respeito dos estrangeiros pela arte brasileira.
Tanto que diversas universidades em outros países têm cursos de capoeira no currículo, com aulas em português. E mestres brasileiros já foram reconhecidos com título de doutor honoris causa em capoeira. Resultado do gingado único dos capoeiristas da terra onde a arte nasceu.
"Os estrangeiros que vêm para cá pesquisam sobre a capoeira. E se encantam porque é uma cultura, é uma arte. Eles conhecem o valor cultural e valorizam os mestres brasileiros", afirma Mestre Fran. Um reconhecimento que, na opinião do experiente capoeirista, ainda falta no Brasil.
Uma valorização que está mais de um século atrasada, já que a capoeira surgiu na época da fuga dos escravos para o Quilombo dos Palmares, anos antes da abolição assinada pela Princesa Isabel.

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