Pontos de referência, ao redor dos quais passou a girar não só a vida religiosa, mas também social, as capelas localizadas nos distritos rurais de Londrina ainda são importantes locais de integração da comunidade, além de, atualmente, serem redescobertas como testemunhas da colonização do município.
''Os migrantes e imigrantes que aqui chegavam foram se instalando nos núcleos rurais. As capelas construídas pelos colonos funcionavam como ponto de convergência, onde a comunidade se reunia para rezar, comentar os fatos da vida e fazer festas'', explica a diretora de Patrimônio Histórico Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, Vanda de Moraes.
Construída na década de 30, a Capela São Miguel Arcanjo é um marco referencial da comunidade do Patrimônio Heimtal, na Zona Norte. A primeira igreja foi edificada em madeira, entre os anos de 1930 e 1936. Aos poucos, foi sendo substituída pela alvenaria. A capela passou por duas restaurações e, no final de março, concluiu-se a manutenção do espaço. A igrejinha retomou a cor azul, telhas foram trocadas, a área externa ganhou calçada, bancos e um projeto paisagístico, com mudas de manacás da serra, trapoerabas, lírios e hibiscos.
A zeladora Luzia Soria Batista foi quem propôs o projeto de manutenção do edifício histórico. Durante 16 anos ela foi a guardiã do espaço, aposentando-se no início do mês. ''Até comentei com o meu irmão que talvez adoeça de tanta preocupação. Será que a próxima zeladora vai limpar direito, não vai quebrar nenhuma imagem?, indaga, destacando as antigas imagens de santos que embelezam o local, como o Sagrado Coração de Jesus, São Miguel Arcanjo, Nossa Senhora das Graças, São Sebastião. A capela também preserva um órgão de fole alemão da década de 50.
A missa celebrada aos sábados reúne entre 100 e 150 fiéis. Na capela também são realizados estudos bíblicos, abriga grupos de reflexão e uma escola de catequese. A missa sertaneja, celebrada em julho, e a festa do padroeiro, comemorada em 29 de setembro, costumam atrair visitantes da cidade, que se encantam com a simplicidade e o charme da capela. O salão comunitário é cedido para festas de aniversário, casamentos e até velórios.
Nascida no Heimtal há 55 anos, a artesã Ilda Fatobeni sempre teve uma estreita relação com a capela. O avô ajudou a construir o forro da São Miguel Arcanjo. Ilda fez a primeira comunhão na capela e atualmente coordena o Grupo de Reflexão e integra a animação litúrgica. Os filhos tocam e cantam nas celebrações. ''A capela é o cartão postal do patrimônio. Quando ela estava praticamente condenada por conta das rachaduras acho que São Miguel parou as asas sobre a igreja e não a deixou cair. Para que ir tão longe se esta capela é encantadora?''
A professora e catequista Sílvia Cristina Braz, 32 anos, frequenta a capela desde os seis. Sílvia observa que até há pouco tempo a comunidade valorizava a capela apenas em seu aspecto religioso. Agora, os moradores também valorizam os aspectos histórico e arquitetônico. ''A grande quantidade de imagens de santos, por exemplo, é algo que não se vê nas igrejas mais modernas.''
''Percebo que os moradores têm a necessidade de manter a tradição religiosa, passando de geração para geração os costumes rurais, como uma forma de se opor à mentalidade urbana. Até mesmo quem chega dos bairros de Londrina e fixa residência no patrimônio passa a assumir a cultura religiosa para se sentir integrado à comunidade'', contextualiza Oscar Alberto Londono, pároco da Capela São Miguel Arcanjo.

mockup