Valmir Denardin
Enviado a Capanema
Dois anos de reabertura ilegal da Estrada do Colono, que corta o Parque Nacional do Iguaçu, foram suficientes para desencadear o renascimento socio-econômico de Capanema (112 quilômetros a oeste de Francisco Beltrão), no Sudoeste do Estado. Depois de mais de uma década de decadência, o município começa a atrair investimentos e até parte da população que, sem perspectiva, havia migrado.
Capanema foi o maior prejudicado pelo fechamento da estrada, por ordem da Justiça Federal, em setembro de 1986. Um estudo do professor de economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ademir Clemente apontou que, entre 86 e 95, o município acumulou perdas de US$ 327 milhões (cerca de R$ 605 milhões em valores atuais), em decorrência da redução da atividade econômica.
De acordo com o mesmo estudo, as perdas dos 16 municípios das regiões Oeste e Sudoeste diretamente afetados pela estrada no mesmo período somam cerca de US$ 2 bilhões (R$ 3,7 bilhões). A base do levantamento foi a queda do Valor Adicionado (a soma da riqueza gerada em cada município, na indústria, comércio, serviços e agropecuária).
Além de dinheiro, Capanema perdeu mais de 40% da população com o fechamento da estrada. Eram 33 mil moradores em 86. Esse número foi caindo gradativamente até atingir 18,5 mil, no censo de 96. Entre 86 e 88, 300 das 700 empresas da cidade fecharam.
A reabertura ilegal da estrada, comandada por moradores e políticos das duas regiões e que completa dois anos na próxima terça-feira, está mudando esse cenário. Entre 98 e 99, a Prefeitura de Capanema registrou a abertura de 178 novas empresas. No mesmo período, o número de construções triplicou em relação ao período após o fechamento da estrada. Em 96 eram erguidas 30 edificações por ano. No ano passado, esse número subiu para 101.
O índice de Valor Agregado também não pára de crescer. Era de R$ 29 milhões em 95, subiu para R$ 40 milhões em 98 (ano em que a estrada foi reaberta), e deverá atingir R$ 50 milhões em 99. Como o índice é usado pelo governo estadual para repassar as parcelas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) aos municípios, a quantia destinada a Capanema deverá aumentar 40% neste ano, chegando a R$ 150 milhões. Em 97, o município recebeu R$ 110 milhões de ICMS.
A soma de tantos números positivos foi traduzida pela população em duas palavras: euforia e investimento. ‘‘Nota-se um ânimo novo nos moradores, que hoje se preocupam em melhorar o visual de suas casas e lojas’’, constata o consultor de marketing e professor universitário Ivomar José Mezoni, 41 anos. Mezoni, que mora em Francisco Beltrão, viaja todo mês a Capanema para ministrar cursos e dar consultoria a empresas sobre como aumentar as vendas. Os cursos estão sempre lotados.
O renascimento econômico animou a família de Lurdes Dallo, 44 anos, a investir R$ 50 mil na montagem do primeiro laboratório de revelação de fotos da cidade. Para garantir a sobrevivência, durante os dez anos da depressão, o marido de Lurdes, Lucrécio, perambulou, com um laboratório móvel, pela região do Paraguai ocupada por brasiguaios (brasileiros que emigraram para o país vizinho).
Nos últimos dois anos, segundo Lurdes, o movimento na loja fotográfica que a família manteve em Capanema, e que foi totalmente reformada, cresceu 50%. ‘‘O faturamento está ótimo’’, diz, sem revelar valores. Neste ano, o casal planeja enviar aos Estados Unidos o mais velho de seus três filhos, para um curso de aperfeiçoamento em foto de estúdio.
Os irmãos Kennedy Miguel de Sá, 28 anos, e Emerson de Sá, 26, estão gastando R$ 80 mil para reconstruir o posto de combustível da família, fechado em 86, mesmo ano em que a estrada foi interditada. Não foi o único. Dos cinco postos de Capanema, dois foram desativados a partir daquele ano. Hoje, além do posto da família Sá, há outros dois em construção. O principal chamariz para essa futura ‘‘guerra dos combustíveis’’ é a Estrada do Colono, que registra um fluxo médio de 370 veículos por dia.
Apesar de ter decidido investir em Capanema antes da reabertura da estrada, a empresa avícola Diplomata, sediada em Cascavel, foi beneficiada pela medida. ‘‘A estrada facilita a distribuição da carne de frango e nosso contato com produtores do Oeste do Estado’’, afirma o diretor Alfredo Kaefer. Instalada em 97, a empresa já investiu R$ 5 milhões em Capanema. Abate 60 mil frangos por dia e emprega 300 pessoas. Até maio, quando estará empregando 550 funcionários, deverá atingir a meta de 120 mil abates diários.
A Estrada do Colono é o principal fator, mas não o único na retomada do crescimento de Capanema. Os outros dois também são rodoviários: a construção da ponte internacional sobre o Rio Santo Antônio, ligando o Paraná à Argentina, e a inauguração, em janeiro deste ano, da PR-582, que uniu Capanema à PR-182, principal rodovia de acesso do Sudoeste aos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Esses fatores retiraram Capanema – município que tem o Rio Iguaçu e o Parque Nacional do Iguaçu como barreiras naturais – do isolamento rodoviário. Para Carlos Carboni, 34 anos, vice-prefeito de Capanema pelo PT e presidente da Aipopec (associação regional que luta pela reabertura legal da estrada), a via que corta o parque tem uma importância ‘‘psicológica’’, além de econômica. ‘‘Era como se a porta de entrada da casa das pessoas estivesse fechada.’’
Leia mais sobre a Estrada do Colono na página 4.Maior prejudicado pelo fechamento da via que corta o Parque do Iguaçu, município progride com reabertura, que completa 2 anos
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