Vira-latas, poodles, pitbulls. Latidos estridentes, rugidos de fera, silêncio ameaçador. Pequenos companheiros de estimação ou verdadeiros guardas de muitas residências, os cães são um tormento na vida de um tipo de profissonal: aqueles que precisam entrar nos quintais (nem que seja apenas colocar a mão para dentro do portão) para realizar um serviço.
Do entregador de pizza ao carteiro, de quem faz medição do consumo de água à quem vai entregar uma propaganda, todos sofrem com o "melhor amigo do homem" (e inimigo dos trabalhadores).
Mais comum do que se imagina, ataques de cães são um problema para as empresas. Na prática, representam funcionários de lincença médica e, consequentemente, custos extras para os cofres da instituição. Um bom exemplo é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, da qual os carteiros são as principais vítimas de cachorros.
Até setembro desse ano, os Correios registraram 192 ataques em todo o Paraná. A média é de 21,3 ataques ao mês. Cada um deixa, independente da gravidade, o funcionário de "molho" entre três e sete dias. Em alguns casos, o tempo pode chegar a 15 dias. Como as correspondências não podem deixar de ser entregues, alguém precisa substituir. As substituições acontecem de forma sucessiva. Como é uma empresa pública, a conta é repassada para o contribuinte por meio dos impostos. É um efeito dominó.
Curitiba e Região Metropolitana representam 60% dos casos de ataques à funcionários dos Correios, seguidos por Londrina. Ao longo dos anos, o número de mordidas vem crescendo. Em 2006, foram 176 casos. No ano passado, 223. Se a média desse ano persistir, os ataques vão superar os anos anteriores. O Paraná é o Estado que mais registra ataques de cães no Brasil. O segundo é o Rio Grande do Sul, com quase metade do número de ataques.
Para os Correios, os ataques à carteiros representam o terceiro maior problema em se tratando de acidentes do trabalho. Perde apenas para os assaltos em agências e acidentes de trânsito. Tanto é que a empresa está lançando em todo território nacional uma campanha estimulando a população a instalar corretamente caixas de correspondência -sempre viradas para fora, para evitar que o carteiro tenha de colocar a mão para dentro do portão.
A campanha não é apenas de conscientização, mas de efeito moral: os Correios vão deixar de entregar correspondências em casas que não se adequarem. Segundo Rose Maria Manosso, chefe da Seção de Segurança do Trabalho, Medicina e Engenharia do Tabalho dos Correios em Curitiba, a medida tem apenas um motivo: a preocupação com os funcionários, os mais prejudicados em casos de ataque.
Ela explica que os carteiros, ao realizarem as entregas, estão registrando os pontos com caixas irregulares. Em seguida, os moradores vão receber comunicado dos Correios com um aviso de regularização. Depois será verificado se a nova caixa foi instalada. Um novo aviso é emitido caso isso não aconteça.
"Se no terceiro aviso a pessoa não regularizar, os Correios vão suspender a entrega de correspondências nas casas. O cidadão vai ter de buscar suas cartas em algum centro de distribuição", informa Rose. Segundo ela, a medida é drástica, mas é necessária. A idéia partiu dos Correios do Paraná e será adotada em todo o Brasil.
Funcionários de órgãos como os Correios, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e a Companhia Paranaense de Energia (Copel) são os mais vulneráveis à fúria disfarçada de muitos cães. Tanto é que todas as empresas têm programas de treinamento contra ataques caninos. Coordenador dos agentes comerciais de campo da Sanepar, César Luiz Vieira Juschaks diz que os funcionários do órgão recebem treinamento dado pela Polícia Militar (PM) para aprender a lidar com os animais. Além disso, regularmente recebem lembretes para não esquecer as dicas.

Donos despreparados
Para Juschaks, o principal motivo de tantos ataques são os donos. "Falta preparo para cuidar dos cães. Os donos querem ter cães treinados mas não são treinados para ter os cães", critica. Outro problema é a instação dos relógios que fazem a leitura do consumo de água. Muitas vezes, a instalação exige que o leiturista coloque a mão para dentro da casa ou, em muitos casos, precise entrar na residência para fazer a medição. "A Sanepar também tem culpa na instalação. Por isso, estamos iniciando a padronização dos relógios para melhorar a segurança", informa.
Rose Maria Manosso, dos Correios, concorda e lembra outro motivo: falta de políticas de vacinação e castração de animais de rua. "Entendemos como um problema de saúde pública, sim", alerta.

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