Enquanto milhões de insetos nascem, crescem, se reproduzem e morrem sem ser percebidos pelo homem, a cigarra anuncia a altos brados que chegou. Este ano, mais cedo. Donos de ouvidos atentos já notaram que a cantoria recomeçou, mostrando que apesar da estiagem, do aquecimento global da terra e de outros fatores climáticos assustadores, nem tudo mudou na natureza.
É possível, aliás, que o clima tenha influenciado na antecipação da maturidade das cigarras. Centenas de cascas já podem ser vistas junto às árvores, como no canteiro central da Avenida Leste-Oeste, em Londrina. Sinal de que elas atingiram a fase adulta e estão prontas para acasalar e, portanto, cantar. Em anos anteriores, o fenômeno ocorreu em novembro. Mas não há motivo para espanto, tranquiliza o agrônomo Nei Lúcio Domiciano, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
''O homem faz uma estimativa sobre os ritmos biológicos, mas os ciclos podem ser adiantados ou atrasados conforme o ano for mais quente ou mais úmido, por exemplo. Não é um desequilíbrio'', explica. Segundo o agrônomo, o ciclo de vida da cigarra está em sincronia com os eventos da cadeia alimentar. Como ela está associada a culturas de verão, principalmente o café, é quando o clima esquenta que a cigarra ''ganha o mundo''. Algumas respondem aos estímulos já na primavera.
Mas enquanto grande parte desses insetos vive nas lavouras, onde são considerados pragas, uma parcela se estabelece nas cidades, alimentando-se da seiva bruta da raiz das árvores. É ali que se tornam adultas e nos encantam - ou irritam, dependendo do ouvinte - com sua música.
Domiciano esclarece que as cigarras possuem um órgão estridulador, especialmente para emitir seu som característico. É uma forma de comunicação diferente da usada pela maioria dos insetos, que interagem quimicamente com seus parceiros. O mecanismo resulta provavelmente de uma evolução adaptativa dos machos e tem como principal objetivo atrair as parceiras.
Independente se o seu canto agrada ou não, o fato é que as cigarras - como outros pequenos animais - têm algo a nos ensinar. É o que defende o agrônomo do Iapar, que há 20 anos trabalha na área de entomologia (estudo dos insetos). ''Sessenta e cinco por cento das espécies de animais são insetos. É um mundo fabuloso, uma escola para nós. Há os competidores, os predadores, os parasitas, as sociedades. Através deles, descobrimos certas leis da natureza que ajudam o homem'', diz. Será que o canto da cigarra não pode nos ajudar na arte da conquista? Experimente cantar...
A música das cigarras deve ser ouvida até os primeiros meses do ano que vem. Mas o fato de somente as vermos ou ouvirmos agora não significa que tenham surgido repentinamente. Na verdade, elas estiveram por perto durante um, até dois anos. Só que passaram esse tempo debaixo da terra, cumprindo o destino melancólico das cigarras: ver a luz do sol apenas durante alguns dias, deixar uma centena de herdeiros e morrer cantando.

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