O nome é sugestivo. A realidade, no entanto, não confere. A invasão de fundo de vale conhecida como Cantinho do Céu, na Zona Norte de Londrina, é uma das mais antigas da cidade. Há pelo menos 40 anos, sucessivas gerações vivem nas margens do Ribeirão Quati, enfrentando dificuldades tão antigas quanto o sonho de morar com mais dignidade. Hoje, cerca de 50 famílias estão espremidas entre os becos estreitos da área localizada dentro do Jardim Paulista.
A chuva e a falta de infra-estrutura, aliadas ao perigo representado pelo córrego para as crianças, são os principais inimigos dos moradores. A casa da catadora de material reciclável Eliane Alves Barbosa, 44 anos, é a mais ameaçada. Construído precariamente a poucos metros do leito do rio, o barraco de madeira corre o risco de inundar e até desabar quando chove forte. A água traz também o risco de doenças. É comum achar ratos e aranhas até dentro das casas. ''Não são ratinhos, não. Aparece cada camundongo enorme. Um chegou a roer meu dedo enquanto eu estava dormindo. Ainda bem que diminuiu um pouco'', resigna-se Eliane, que divide o teto com três filhos e uma sobrinha.
Ex-presidente da associação de moradores do bairro, Lindalva Carvalho de Andrade, 35, conhece como poucos a realidade do Cantinho do Céu. Mora no bairro praticamente desde que nasceu. Ela conta que os moradores foram cadastrados pela Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) mais de uma vez. A retirada das famílias, entretanto, ainda não concretizou-se por resistência dos próprios habitantes da área. Duas alternativas oferecidas pela companhia foram rejeitadas. A justificativa foi a precariedade dos locais e a obrigação de morar na vizinhança de habitantes de outros fundos de vale.
''Aqui pelo menos nós temos segurança. Dá para sair e deixar a casa aberta que não tem perigo de assalto. Cada um toma conta para o outro. Em outro lugar pode ter problema por causa de ter que misturar com moradores de lugares perigosos'', salienta Lindalva.
Mesmo com a precariedade, o ambiente é agradável, na medida do possível. As crianças brincam com tranquilidade nas ruelas, sem medo de atropelamentos ou assaltos. A boa vizinhança é consequência da própria formação do Cantinho do Céu. Loteada a partir de uma chácara, a primeira moradora foi a mãe de Lindalva, então caseira da propriedade. As famílias pioneiras Carvalho, Rocha e Barbosa. Filhos, netos e até bisnetos dos primeiros moradores permanecem no local, vivendo com parentes ou construindo as próprias casas. ''Se tivéssemos como construir nos terrenos em frente, para tirar as casas da beirada do rio, já estava bom'', declara, resignada, a dona de casa Lindalva Andrade.

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