As cantinas das escolas públicas e particulares são hoje, juntamente com as famílias e o marketing das indústrias de alimentação, os principais responsáveis pela obesidade na infância e adolescência. A opinião é do presidente da comissão científica do Hospital Evangélico de Londrina, o cardiologista Pedro Aloysio Kreling. A preocupação foi apresentada em uma convenção multidisciplinar sobre obesidade promovida pelo hospital na semana passada.
Paulo Wolfgang‘‘Uma alimentação correta protege o organismo das doenças’’, afirma Kreling. Além da questão da saúde, esclarece, uma criança obesa tem uma tendência maior a se tornar um adolescente e um adulto com sobrepeso. ‘‘Comprar o lanche da cantina é quase irresistível para a criança. Dá a sensação de maturidade e independência e, mesmo aqueles que trazem o lanchinho de casa, quando podem, optam pelos produtos industrializados oferecidos nas cantinas’’, analisa o médico.
Kreling explica que, como as cantinas não têm a preocupação em oferecer alternativa de alimentos mais saudáveis, elas reforçam os maus hábitos alimentares que começam em casa. ‘‘Infelizmente as cantinas e escolas têm estado mais preocupadas com os lucros do que com a saúde da criança. As direções das escolas, pais e a própria saúde pública precisariam trabalhar para mudar esta realidade’’, diz o médico.
Mario Cesar‘Alimentação correta
protege o organismo
contra as doenças’,
diz o médico KrelingA preocupação do médico é confirmada pela pesquisa Alimentação: Qualidade Nutricional de Alimentos Comercializados nas Cantinas das Escolas de Londrina. O trabalho feito pela coordenadora do curso de nutrição da Unopar, a nutricionista Cristina Simões de Carvalho Tomazetti, comprova que poucas cantinas oferecem lanches saudáveis. Foram pesquisadas cantinas de 47 escolas particulares e estaduais da cidade, no período entre 96 e 97.
Segundo a pesquisa, na maioria das escolas as cantinas são terceirizadas ou administradas pelas associações de pais e mestres (APMs), com o objetivo de gerar renda para outros setores do estabelecimento de ensino.
O trabalho mostra que 93% das cantinas vendem salgados fritos e chips; 100% oferecem refrigerantes, chicletes e balas; 80% têm refrescos artificiais; chocolates (84%); doces e tabletes (73%) e pipoca (73%). Sucos naturais aparecem no cardápio de apenas 11% das cantinas. O iogurte só é encontrado em 5% das lanchonetes e as frutas em 3%.
‘‘Mesmo que a criança queira comer algo mais saudável é praticamente impossível manter o hábito diante da falta de alternativa e de tantos apelos’’, afirma Cristina Tomazetti. A nutricionista observa que, nos últimos anos, aumentou o número de crianças que compram seu lanche nas cantinas das escolas. Paralelamente, diz, é possível constatar um aumento significativo de crianças com sobrepeso e obesas.
Cristina Tomazetti defende que a escola tem como principal objetivo educar as crianças e adolescentes. ‘‘A cantina, mesmo quando terceirizada, não pode fugir deste compromisso’’, reforça. Para ela, a cantina pode se transformar no melhor lugar para colocar em prática a educação alimentar. Diz que o fascínio da cantina, para a criança, está no fato de ser ponto de encontro e na oportunidade de administrar seu próprio dinheiro.
A nutricionista afirma que a cantina tem mais condições de oferecer variedade de produtos frescos e saudáveis para o lanche. Acrescenta que, mesmo a mãe bem intencionada, tem grandes limitações na hora de preparar o lanche. São poucas as alternativas de produtos que podem ficar na lancheira por três horas sem perder a qualidade alimentar. ‘‘Sob este aspecto aumenta ainda mais a importância de uma cantina bem estruturada e comprometida com a saúde da criança. O desenvolvimento da criança depende de uma alimentação adequada’’, defende.
Ela garante que a mudança não traria prejuízo financeiro para as cantinas. ‘‘Os produtos saudáveis também são atrativos e as crianças gostam’’, afirma. Cita como exemplo as minipizzas onde bastaria substituir o catchup por molho de tomate, incrementando o salgado com uma cenoura ralada. A nutricionista garante que, bem organizado, o cardápio garantiria o consumo. ‘‘No começo poderia haver uma redução na margem de lucro. Mas o resultado seria altamente compensatório’’, afirma.

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