Candidatas a heroínas
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sexta-feira, 08 de outubro de 2004
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
A resposta que antes era corriqueira entre meninas e meninos para a pergunta ''o que você quer ser quando crescer?'' não é mais embalada por sonhos cor- de-rosa ou azul como no tempo da vovó, em que as garotas brincavam de bonecas e de casinha, esperando o dia em que fossem mamães de verdade, professoras ou enfermeiras, e os garotos disputavam bola de meia, treinando o físico para serem policiais, bombeiros ou caminhoneiros.
Hoje, as brincadeiras de meninos não são privilégios deles, como os sonhos que também podem ser compartilhados por quem até algumas décadas atrás eram as únicas a usarem brincos, fazendo rabo de cavalo nos cabelos.
''Desde criança, eu via o meu pai sair de casa fardado e pensava em um dia ter a mesma profissão dele''.
A frase, inimaginável no tempo da vovó, ilumina o sonho de Franciele Silva Luvizeto, 19 anos, uma das candidatas a uma das 20 vagas reservadas às mulheres no concurso público, que preencherá 293 vagas de soldados, sendo que 28 vagas serão destinadas a homens afrodescendentes. A cota para as mulheres que se declararem descendentes de negros é de duas vagas. A exigência para participar da seleção é ter concluído o ensino médio ou equivalente.
Ao pai da jovem, o sargento Valmir Picolo Luvizeto, 39 anos, cabe engomar a farda com um pouco de orgulho ao falar da escolha da filha.
''Não influenciei a Franciele em nada. Foi uma coisa natural dela. Acredito que está levando em consideração a profissão que eu tenho, dando continuidade ao meu trabalho'', afirma Luvizeto.
Trata-se de uma herança profissional que alguns pais culturalmente esperam deixar para os filhos homens e que, para o sargento, tem uma medalha de mérito maior, já que Franciele é filha única, optando por seguir a sua profissão e não a da mãe, Irandi Silva Luvizeto, técnica em laboratório.
''Nossa, seria muito bom se eu pudesse um dia descer de rapel de um prédio ao lado do meu pai. Já imaginou isso?'' - sonha acordada a jovem, que não foi aprovada no vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) para o curso de Enfermagem.
Nem bem chegou ao topo desse prédio imaginário, a mãe da garota já pede para descer, com medo dos riscos que a profissão oferece ao lado da bravura. Ao que a garota finca o pé na certeza que tem em querer realizar um sonho.
''Minha mãe diz que se eu passar não vai me deixar fazer a Academia Militar. Não vou hein... Qualquer lugar é perigoso. Agora mesmo pode cair um avião sobre nós. Quando chega a hora da gente não tem jeito''.
A farda do pai não é sua única inspiração. Um tio, que também pertence à coorporação, move o sonho da candidata a soldado do fogo.
Combatente, mergulhador ou socorrista do Siate. Para Franciele é difícil definir a área de atuação, acrescentando que a missão principal dos bombeiros de salvar vidas é a maior motivação.
Tímida e de gestos delicados, Franciele provocou reações de surpresa entre os amigos, que souberam da sua intenção de entrar para a carreira militar. Os que ainda consideram que a iniciativa da garota não passa de fogo de palha, a preparação que está fazendo mostra o contrário.
Diariamente, Franciele conta com a companhia do sargento Valmir nas corridas pelas ruas do Jardim Sabará, bairro onde moram.
Esforço que também faz parte da rotina de Stephania Kelly da Costa, que aos 19 anos já pensou ser professora, mas o sonho de vestir a farda de soldado do fogo é mais forte.
Fazendo um treino físico duas vezes por semana, com um grupo de cinco candidatos ao concurso do Corpo de Bombeiros, que três dias da semana ainda se reúne para 6 horas de estudos, Stephania não relaxa nem nas aulas de natação, que começou a fazer para estar mais preparada para o teste.
A jovem corre contra outras candidatas, almejando a classificação para alcançar a honradez, a gratificação e a estabalidade, que a carreira no Corpo de Bombeiros oferece.
Contra o medo do perigo, Stephania coloca à frente a formação militar, contando com o apoio da mãe, que é comerciante. Ele afirma que os homens podem ficar tranquilos, já que não são concorrentes diretos no concurso. Prova disso é um primo inscrito no exame e que a está ensinando nadar.
A candidata destaca que a maioria das aprovadas vai trabalhar na área burocrática. Isso não diminui o sonho de ser socorrista do Siate.
Com 1,67 metros e 53 quilos, a garota ainda divide o quarto com bichinhos de pelúcia. Espaço compartilhado também pela vaidade, que não será esquecida ao namorar com a farda. E até aposta num certo sucesso, que os uniformes em geral costumam fazer.
''É possível conciliar a vaidade. As pessoas perguntam:'Você vai ser bombeira?' - surgem até algumas cantadas. Alguns podem discriminar, achando a carreira militar masculina demais para as mulheres. Porém, acredito que a gente pode ser feminina, usando farda'', comenta.
Por enquanto, a candidata a heroína do fogo ainda está do lado dos admiradores dos que realizam feitos extraordinários, como os soldados do Corpo de Bombeiros. ''Oh, com certeza já me imagino vestindo o uniforme. Sou totalmente apaixonada por uma farda'', conclui Stephania.


