O maior desafio de especialistas em doenças infecto-contagiosas é conscientizar os governantes de países pobres sobre o custo/benefício das campanhas de vacinação. Esta foi a conclusão a que chegaram 170 imunologistas e infectologistas de 12 países que se reuniram em Foz do Iguaçu no último final de semana para o simpósio Vaccinology’96, um dos mais importantes eventos do gênero realizados na América Latina.
O presidente da Sociedade Latino-Americana de Infectologia Pediátrica, Miguel Tregnaghi, disse que nos últimos 20 anos o índice de proteção a crianças alcançou 80% no mundo inteiro graças à adoção dos programas de imunização. ‘‘Se tivéssemos uma aplicação mais eficaz das vacinas já existentes, a cada ano reduziríamos em até 6 milhões o número de mortes provocadas por estas doenças na América Latina’’. Mas o alto custo é a principal barreira aos países pobres para a adoção de novas vacinas.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a combinação de novas vacinas às já existentes poderia reduzir os custos em até 70%. A empregada contra hepatite A e B, por exemplo, seria mais acessível. Hoje cada dose custa US$ 50,00. Transmitida sexualmente e por hemoderivados, a hepatite mata 1 milhão de pessoas por ano no mundo.
O professor de pediatria da Universidade Federal de São Paulo, Calil Farhat, lista algumas vantagens dessas vacinas polivalentes: ‘‘Menos injeção, menos visitas médicas, facilidade na implementação de programas de saúde e custo de transporte, armazenamento e recursos humanos reduzidos’’. Um exemplo dessa combinação é a vacina DTP, contra poliomielite, difteria e tétano conjugada com a Hib.
A pesquisadora chilena Rosane Lagos disse durante o Vaccinology’96 que a incorporação da aplicação da vacina Hib (Haemophilus tipo B, causadora da meningite do mesmo nome) ao programa nacional de vacinação não agregou outros gastos, a não ser o da própria vacina. Desde a aplicação das primeiras doses, em 1992, apenas um caso da doença foi registrado.
Já o Brasil enfrenta dificuldades crônicas como subnotificação e falta de diagnóstico correto. O presidente da Comissão Permanente de Imunização de São Paulo, Gabriel Oselka, disse que não há dados confiáveis para a meningite meningocócica provocada pela bactéria Haemophilus. O último dado oficial indica coeficiente de incidência de 50 casos em 100 mil, considerado grave pela OMS.
O Brasil também enfrenta dificuldades econômicas para adotar vacinas mais avançadas. O País ainda não obteve sucesso na erradicação da raiva, por exemplo. Atualmente, há aproximadamente 180 mil tratamentos após mordidas de caninos, com 19 mortes registradas só este ano. Falta, entre outras coisas, treinamento em recursos humanos e melhoria da eficiência de vacinação em cães.

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