Uma campanha nacional ontem, deflagrada por alunos do curso de farmácia, teve como objetivo alertar a comunidade para o uso correto dos medicamentos. Em Londrina, o movimento contou com a participação dos estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e apoio da Associação de Farmacêuticos. Estudantes estiveram no Calçadão (centro) durante parte da manhã e da tarde distribuindo folhetos. A função do farmacêutico também foi abordada.
Cristiane Fujita, membro do Conselho Fiscal da Associação de Farmacêuticos e presidente do Sindicato dos Farmacêuticos do Paraná, explica que o uso incorreto de medicamentos e, principalmente, a automedicação é uma questão cultural no Brasil. Ela cita alguns casos mais recorrentes, entre eles o que envolve a antibiótico-terapia (tratamento realizado a base de antibióticos, receitados quando há alguma infecção).
É uma prática quase comum interromper o uso deste remédio assim que os sintomas da infecção desaparecem. Entretanto, Cristiane Fujita explica que o tratamento com antibiótico deve ser seguido rigorosamente como foi prescrito pelo médico, tanto no que diz respeito aos horários, quanto ao número de dias. Segundo alguns médicos, o antibiótico nunca deve ser tomado menos de 10 dias.
A farmacêutica alerta que as consequências, se a pessoa não fizer o tratamento adequadamente, podem ser muito sérias. As bactérias tornam-se resistentes e em tratamentos posteriores, quando novas infecções surgirem, serão necessários antibióticos cada vez mais potentes e caros.
‘‘O resultado são hospitais cheios, porque dependendo da repetitividade da doença a pessoa acaba sendo internada para tratamento’’, afirma Cristiane Fujita.
A chamada ‘‘empurroterapia’’ é outra prática preocupante não só nas farmácias de Londrina como de todo o Brasil. De acordo com Cristiane Fujita, a ‘‘empurroterapia’’ é praticada por balconistas e por proprietários que não são farmacêuticos. Sob a justificativa da sobrevivência ‘‘empurram’’ diversos medicamentos para a pessoa. ‘‘Muitas vezes a pessoa precisa só de uma pastilha para a garganta, por exemplo, mas sai da farmácia carregando antiinflamatório, antibiótico, antitérmico e nesta brincadeira gasta até R$ 80,00’’, afirma.
Entra em jogo nesta situação algo denominado ética. Na opinião da farmacêutica, a ‘‘empurroterapia’’ acontece quando não há uma ética profissional. Esta prática evidencia um problema que é a saúde transformada em produto de lucro. Esta realidade pode ser verificada pelo grande número de farmácias em Londrina. ‘‘A OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza que haja uma farmácia para cada 10 mil habitantes e em Londrina existem 200 farmácias’’. O que significa que há uma farmácia para cada 2.500.
O reverso desta situação pode ser observado na camada mais carente da população. Pessoas que buscam as Unidades Básicas de Saúde e muitas vezes não compreendem as orientações dos médicos. ‘‘Os médicos atendem rapidamente e muitas vezes as pessoas saem sem entender a forma adequada e uso do medicamento. Por isso o farmacêutico deve estar orientando os clientes neste sentido’’, explica Cristiane Fujita.
Segundo ela, as unidades básicas deveriam ter um farmacêutico para orientar sobre o uso adequado dos medicamentos. ‘‘Qualquer pessoa pode fazer isto dentro de um posto de saúde, mas só o farmacêutico tem o conhecimento de farmacologia e fisiologia necessários’’, explica.
A farmacêutica afirma que o problema também é verificado em consultórios particulares, mas no Sistema Único de Saúde o problema é maior devido ao grande número de pessoas para serem atendidas em apenas 4 horas e à justificativa do baixo salário. ‘‘Falta paciência dos médicos para orientar um pouco melhor os pacientes’’, acredita.

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