Campanha quer humanizar justiça criminal
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de maio de 2010
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Preocupados em buscar alternativas que possam punir melhor os presos do sistema penitenciário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) iniciou uma campanha de modernização da justiça criminal. O CNJ quer ampliar o debate sobre penas alternativas que possam beneficiar a sociedade, além da garantia de alguns direitos dos presos.
Entre as medidas que constam do Plano de Gestão das Varas Criminais e de Execução Penal, estão a utilização de penas alternativas para crimes com penas pequenas; a eliminação do regime aberto, que exige casas-albergues para a acolhida dos presos no período noturno, pela prisão domiciliar condicionada ao uso de tornozeleiras eletrônicas; ou ainda o pagamento de fiança com valores expressivos.
O advogado criminalista de Londrina, Mateus Vergara, analisa com bons olhos a iniciativa do CNJ e até se surpreende com a campanha, pois, segundo ele, a elitização do Judiciário costumava ser um bloqueador de ações como essa. Nosso sistema penitenciário padece da falta de controle e o problema está seriíssimo.
Com o objetivo de contextualizar a atual situação do sistema prisional do país e do porquê de todas essas medidas passarem a ser discutidas agora, Vergara lembra que os últimos presos da criminalidade mais ou menos organizada, inseridos no sistema carcerário nos anos 1980, tiveram contato com presos políticos. Assim, segundo ele, houve um intercâmbio fundamental para a organização carcerária que existe hoje. Eles tiveram contato com métodos de revolução aprendidos na Rússia, União Soviética e outros movimentos esquerdistas da América Latina. Apesar de a maioria desses presos estarem mortos hoje, eles passaram essa cultura de presídio para os novos. Daí então começamos nesse período uma grande organização da massa carcerária, diz.
O advogado lembra que, com a Constituição de 1988 garantindo uma série de direitos aos cidadãos, inclusive aos presos, o Judiciário passou a ver que estava havendo problemas no sistema carcerário. Foi percebido que, aliado a isso, temos um outro problema: presos esquecidos. Eles não têm advogado, não têm dinheiro para pagar um e existe toda a dificuldade do próprio Estado para conceder a eles um advogado. Com isso, eles passam a se sentir abandonados e se integram a esse movimento dentro dos presídios se sentindo acolhidos e se tornam soldados.
Vergara explica que
soldado é a figura que colabora com a organização carcerária no lado externo das unidades quando deixa a prisão. São as pessoas que vão colocar fogo em ônibus, buscar dinheiro, fazem movimentação bancária. O Estado não está chegando dentro dos presídios e, percebendo isso, o CNJ sentiu a necessidade de se buscar uma providência enérgica.
O advogado defende que seja encarcerado quem precisa para evitar que mais soldados sejam criados. Quem furta um celular não precisa ser preso, ainda. É um problema que pode ser contido no início, mas a gente não faz isso. Transportamos ele para o sistema e lá dentro ele morre ou sobrevive e dessa forma, afirma.


